Depois de bater na trave na qualificação para os Mundiais da Rússia, em 2018, e do Catar, em 2022, os Leopardos finalmente conseguiram, depois de muito suor, uma vaga no Mundial-2026. Na repescagem, derrotaram a Jamaica por 1-0 no prolongamento, graças a um golo de Axel Tuanzebe, após um canto.
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Para o treinador francês Sébastien Desabre, que vai conduzir a RD Congo no Mundial, esta é apenas a primeira fase do projeto.

“Depois do Mundial, vamos continuar a melhorar. Mas, antes disso, agora o meu foco total é mostrar o que de melhor a República Democrática do Congo pode fazer", disse em entrevista, no momento em que anunciou os convocados.
Ainda nas Eliminatórias Africanas, a RD Congo esteve perto de despachar Senegal e obter a qualificação direta. No jogo decisivo, em Kinshasa, esteve a vencer por 2-0 mas permitiu a reviravolta. A vaga na repescagem chegou após os playoffs e as vitórias sobre Camarões (1-0) e Nigéria, com 4-3 nos penáltis, após um empate a um golo.
Pressão da ditadura
No Mundial jogado há mais de meio século na Alemanha Ocidental, o Zaire entrou para a história por motivos pouco felizes. Foi a primeira seleção da África Subsaariana a disputar um Mundial, mas acabou eliminada na fase de grupos após três derrotas — diante de Escócia, Jugoslávia e Brasil.
Sofreu 14 golos e não marcou nenhum. Era a única representante africana naquele mundial. Hoje, são 10.
A imagem mais lembrada daquela campanha continua a ser a do defesa Mwepu Ilunga a correr a partir da barreira para rematar a bola para longe antes da cobrança de um livre de Rivellino. Tratado com gozo na época, porque achava-se que o jogador africano não conhecia as regras do jogo, aquele lance, com o tempo, passou a ser visto sob outro prisma.

Os jogadores estavam desesperados por causa da pressão do ditador Mobutu Sese Seko. O regime havia ameaçado os jogadores a nunca mais voltarem para casa se a seleção perdesse por quatro ou mais golos de diferença.
Como estava 2-0, Ilunga queria ganhar tempo e forçar uma expulsão. O jogo estava perto do fim. O Brasil ainda fez mais um antes do apito final. E o limite não foi ultrapassado.
Seleção da diáspora
Mobutu havia rebatizado a então República Democrática do Congo como Zaire, dentro de uma política que procurava apagar referências coloniais e promover uma identidade nacional africana, três anos antes daquele Mundial. Após a queda de Mobutu, em 1997, o país retomou o antigo nome.
A atual RD Congo é herdeira direta daquele Zaire de 1974, mas a seleção que desembarca nos Estados Unidos, Canadá e México em 2026 é muito diferente daquela que representou o país há cinco décadas. Grande parte do atual plantel foi formado fora do território congolês, reflexo da extensa diáspora criada ao longo das décadas.

A antiga colónia belga mantém fortes vínculos com a Bélgica até hoje. Milhares de congoleses emigraram para o país europeu após a independência, criando comunidades importantes principalmente em Bruxelas e outras cidades. O resultado aparece claramente no futebol.
Diversos jogadores da seleção nasceram na Bélgica ou passaram pela formação do país europeu. Nomes como Joris Kayembe, Noah Sadiki, Théo Bongonda, Rocky Bushiri, Matthieu Epolo e Ngal'ayel Mukau são exemplos dessa conexão. Outros atletas importantes nasceram em países como França e Inglaterra, mas optaram por defender a terra dos seus pais ou avós.
Essa característica faz da RD Congo uma das seleções mais representativas do fenómeno das "seleções da diáspora", em que atletas desenvolvidos em centros europeus escolhem representar as suas origens familiares em competições internacionais. Em alguns jogos, uma parcela significativa dos titulares nasceu fora do continente africano.
Ébola trava adeptos africanos
O regresso ao Mundial, entretanto, acontece no meio de um contexto delicado. O país enfrenta um surto de Ébola que gerou preocupações internacionais em vésperas do torneio. Embora a crise sanitária não tenha afetado diretamente a formação da equipa — já que a maioria dos atletas vive e joga na Europa —, provocou consequências importantes para os adeptos.
Restrições de viagem impostas pelos Estados Unidos dificultaram ou impediram a entrada de muitos adeptos que vivem na República Democrática do Congo ou que estiveram recentemente no país. A situação levou a Federação Congolesa a pedir à FIFA soluções para os adeptos que haviam adquirido ingressos e agora enfrentam obstáculos para acompanhar a equipa presencialmente.

O resultado é uma situação incomum: a seleção consegue disputar o Mundial praticamente sem impactos desportivos significativos do surto, mas uma parcela dos seus adeptos encontra barreiras para estar nas bancadas. Por isso, o apoio à RD Congo nos estádios tende a vir maioritariamente da diáspora espalhada por Bélgica, França, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos.
Yoane Wissa + 10
Pelo menos no papel, Yoane Wissa é o grande destaque da RD Congo. Após uma transferência milionária do Brentford para o Newcastle no início da última temporada, o jogador nascido em França sofreu uma séria lesão no joelho. E, agora, terá a missão de liderar a seleção congolesa.
O futebol coletivo demonstrado pela seleção africana nas eliminatórias e na Taça Africana das Nações é a principal assinatura do treinador Sébastien Desabre, considerado um dos técnicos mais experientes do futebol africano. Aos 49 anos, construiu praticamente toda a carreira no continente, passando por clubes e seleções de diversos países antes de assumir a RD Congo, em 2022.

Desabre começou a sua trajetória em França, mas ganhou destaque ao treinar equipas africanas como Espérance de Tunis e Wydad Casablanca. O seu primeiro grande trabalho em seleções foi com o Uganda. Sob o seu comando, a equipa alcançou os oitavos de final da Taça Africana das Nações de 2019, um resultado considerado expressivo para o país.
Na RD Congo, Desabre assumiu a missão de reconstruir uma seleção tradicional do continente que vivia um período de instabilidade. O seu estilo é baseado em organização tática, disciplina defensiva e transições rápidas para o ataque.
O treinador costuma priorizar o coletivo acima das individualidades. Desde a sua chegada, os Leopardos recuperaram competitividade e fizeram uma campanha invicta nas eliminatórias da Taça Africana das Nações de 2025.
A surpresa
Nascido na Bélgica, mas médio do Lille, de França, o jovem de 21 anos Ngal'ayel Mukau pode ser uma das surpresas da República Democrática do Congo, principalmente por ser um dos motores do meio-campo.
Consolidado no ataque dos Leopardos, Cédric Bakambu, do Betis, tem sido um dos melhores marcadores da equipa dirigida por Desabre. Experiente, aos 35 anos, marcou quatro vezes nas eliminatórias e fez duas assistências.

Jogos da RD Congo no Mundial-2026:
17/6 (quarta-feira)
18:00 - Portugal x RD Congo (Estádio NRG, Houston, EUA)
24/6 (quarta-feira)
03:00 - Colômbia x RD Congo (Estádio Akron, Zapopan, México)
28/6 (domingo)
00:30 - RD Congo x Uzbequistão (Estádio Mercedes-Benz, Atlanta, EUA)
