No início do jogo, ouviam-se frases soltas como “goleada nas bancadas para os turcos”. Mas dentro do relvado, as coisas foram bem diferentes. Portugal sabia, à priori, que ao vencer a partida garantia já o apuramento e no primeiro lugar do grupo.
Começando pelo fim. Com esta vitória, Portugal conseguiu saber já onde e quando vai jogar o primeiro jogo da fase a eliminar. Internamente a Seleção poderá agora pensar na rotatividade no último jogo da fase de grupos de forma a promover a recuperação para o jogo seguinte.
Alterações relativamente ao jogo anterior
Relativamente ao primeiro jogo da fase de grupos, Portugal alterou o seu sistema substituindo apenas um jogador: Roberto Martínez deixou Diogo Dalot no banco de suplentes, entregando a titularidade a Palhinha.

Com o triângulo do meio-campo a ser feito com um jogador mais fixo, João Palhinha, e dois médios interiores, Vitinha e Bruno Fernandes, que variavam o seu posicionamento de acordo com a fase do jogo.
A Turquia, por seu lado, manteve o sistema que tinha apresentado no primeiro jogo, mas mudando algumas peças: desde logo o guarda-redes, jogou Altay Bayindir em vez de Gunok; o defesa-direito Muldur ficou no banco para entrar Zeki Çelik; alterando também os dois extremos Arda Guller e Kenan Yildiz para entrarem Kerem Akturkoglu e Yunus Akgun.
Como jogou Portugal
Em organização ofensiva, Portugal, a partir do setor defensivo, jogava em 1x4x2x3. Saía a jogar a partir do guarda-redes Diogo Costa com os dois centrais e com apoio frontal de Palhina e Vitinha. Bruno Fernandes jogava como médio ofensivo a dar uma linha passe numa zona mais alta realizando ataque à profundidade/ligação em apoio no corredor central. Cristiano Ronaldo voltou a jogar como avançado, mas fundamentalmente em apoio, com Rafael Leão a dar largura no corredor lateral esquerdo e Bernardo Silva a dar largura no corredor lateral direito, mas com variações para o corredor central com João Cancelo a jogar na largura.
Portugal, fruto das relações homem a homem que eram estabelecidas pelos defesas turcos e fundamentalmente pela agressividade dos nossos laterais, conseguiu várias vezes, com ações de João Cancelo e Nuno Mendes, chegar a zonas de finalização com ações de grande intensidade por parte dos laterais, potenciando as caraterísticas dos nossos jogadores, o posicionamento em que foram colocados e a forma como o adversário procurava defender.

Na etapa de construção e finalização, fruto da intenção do selecionador nacional, Portugal apresentou num setor médio um bloco mais fixo de três jogadores, Rúben Dias, Pepe e Palhinha. Os laterais variavam o ataque à profundidade, no corredor central e no equilíbrio. Os dois extremos davam largura e no corredor central apresentavam-se Ronaldo e Bruno Fernandes a realizarem diagonais nas costas dos laterais da Turquia. Em alguns momentos, nesta etapa do jogo, a Seleção queria atrair a pressão para posteriormente sair na profundidade de forma direta, fundamentalmente recorrendo a Rafael Leão, ou de forma mais apoiada com a envolvência e velocidade dos laterais.
Transição defensiva
Chegados a esta fase do europeu, impressiona a pressão durante todos os momentos determinantes de Bernardo Silva, Bruno Fernandes e Vitinha e a capacidade ganhar a segunda bola, assim como o equilíbrio do bloco mais fixo que permite ter vantagem espacial nos duelos. Relativamente ao equilíbrio, este é assegurado de forma clara independentemente da etapa em que a equipa perde a posse de bola, da zona de campo ou da distribuição espacial da equipa no momento de construção.
Organização defensiva - Defender de forma necessária
Neste momento do jogo, a Seleção portuguesa invertia o triângulo do meio-campo, jogando em 1x4x1x4x1. No que se refere às missões, Ronaldo fechava maioritariamente a linha de passe a Akaydin, com Bernardo Silva a ser o gatilho de pressão (impressionante a capacidade de jogar e para pressionar), pressionando na diagonal vindo do corredor lateral, perseguindo a bola e forçando o erro. Com João Cancelo a fechar o espaço nas suas costas, a linha defensiva basculava para o lado da bola e de Rafael Leão.

Na grande maioria do tempo, Portugal pressionou alto e de forma intensa compacta e organizada, independentemente do resultado. Apenas não o fez em dois momentos, depois do resultado estar já 0-3 para Portugal e enquanto o resultado esteve em aberto e aqui parece uma nuance estratégica: No setor defensivo, a Seleção apresentou algumas nuances típicas da linha de quatro defesas (e a normal dificuldade para defender a largura do campo), quando o central defende no corredor lateral, no setor médio defensivo, sempre que necessário, João Palhinha entrava na linha de quatro defesas, formando uma linha de 5, com os dois médios Vitinha e Bruno Fernandes a fecharem as zonas exteriores.
Leia a crónica da partida
Quando a equipa estava organizada em bloco médio-baixo, com os jogadores próximos dos seus jogadores de relação, os defesas laterais defendiam por dentro e os extremos defendiam o corredor lateral na zona mais exterior. E é de realçar a concentração e compromisso competitivo de todos os jogadores.

A história do jogo e a história que fica do jogo
O primeiro lance de golo pertenceu à seleção turca, com um cruzamento do lado esquerdo da Seleção e Kokçu a rematar. O jogo estava dividido em situações de golo, com Portugal com maior controlo e domínio, mas a Turquia, com ações coletivas do lado direito e ações individuais do lado esquerdo, conseguiu criar perigo junto da baliza de Portugal, obrigando Diogo Costa a fazer uma intervenção num lance em que não conseguiu defender uma superioridade numérica no corredor lateral direito de Portugal.
Depois desse período dividido, ao minuto 22 surge o golo de Portugal: Nuno Mendes faz uma rotura por dentro, Rafael Leão – que até esse momento não tinha conseguido vencer nenhuma situação de um para um – passa novamente para Nuno Mendes e este cruza atrasado quando Bernardo Silva realizava uma diagonal para a zona central da área (que favorece o seu pé esquerdo). Ou seja, uma subida de Nuno Mendes desbloqueou o marcador.
E depois do Golo? Portugal continuou a forçar o erro adversário, com Bernardo Silva a pressionar. Em organização ofensiva, Portugal, fruto da pressão turca, começou a construir em setores mais baixos, com a intensão clara de atrair a pressão. Numa situação em que Portugal descobriu o espaço no corredor central, embora falhando a ligação entre Cancelo e Ronaldo (Ronaldo simulou um ataque à profundidade mas fez uma diagonal contrária e Cancelo baixou a cabeça e colocou a bola nas costas do central), existiu uma falta de comunicação entre o defesa-central turco e o guarda-redes e… autogolo.
Como sublinhei na análise após o jogo Portugal – República Checa, futebol é o momento. E neste momento, em dois jogos disputados na fase de grupos, Portugal tem dois autogolos a favor.
No início da segunda parte, num jogo controlado por Portugal, num movimento de saída com descoberta do homem livre no corredor central e com duplo ataque à profundidade de Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo, este deu o golo que tantas vezes Bruno Fernandes lhe ofereceu. A partir daí, Portugal baixou o bloco, procurou transitar em contra-ataque ou ataque posicional, mas fundamentalmente o segundo passe saía errado e o jogo terminou.
Alterações antes e durante
Neste momento Portugal está a transmitir talento, organização e as nuances táticas e estratégicas estão a resultar em vitórias contundentes da organização e com virtuosismo da equipa e dos seus jogadores.
Mas durante o jogo as mexidas também têm surtido efeito. A substituição de Palhinha e Rafael Leão, ambos com cartões, aliás, Palhinha viu o cartão amarelo numa transição em que Rafael Leão não podia ver o segundo amarelo (dois cartões amarelos por simulação em dois jogos), no lance do terceiro golo é Rúben Neves que faz o passe para Cristiano Ronaldo. Para realçar outro exemplo das alterações, neste caso do ponto de vista tático, ficou mais evidente na etapa de construção Nuno Mendes como terceiro homem da linha defensiva mais baixo (saída a três com laterais assimétricos) e o defesa-direito, João Cancelo ou Nélson Semedo, mais alto e com chegada na área adversária.
Do ponto de vista estatístico é clara a superioridade de Portugal em todos os domínios, para além dos aspetos fundamentais, os golos e situações de golo consentidas e realizadas, aspetos como a posse de bola, e os aspetos que muitas vezes expressam a superioridade na forma de jogar de uma equipa, como por exemplo o número de faltas que a seleção turca realizou comparativamente à seleção portuguesa.

Aquele que prometia ser o jogo mais difícil de Portugal nesta fase, revelou afinal uma história de aparente facilidade, mas que foi escrita com mérito e comprometimento pelos protagonistas. E num ápice Portugal se posiciona para uma das mais competentes passagens à segunda fase na sua história de participação em campeonatos da Europa.
E seleção turca?
Para além da primeira e grande oportunidade de golo, a seleção turca e os seus jogadores lutaram, procuraram alterar jogadores, alterar a zona de pressão, a forma de pressão, as formas de chegada ao último terço. Mas Portugal foi efetivamente melhor em todos os domínios e a história do jogo ajudou a criar uma partida com grande superioridade… exceto no número de espectadores na bancada.
Reveja as principais incidências da partida

