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"Nunca imaginei chegar aqui"
- Obrigado por nos receber aqui. Parabéns pela época passada, que foi muito bem conseguida. Os objetivos foram alcançados e começamos por aí: o desafio era, efetivamente, muito grande quando chegou.
Muito obrigado, em primeiro lugar. Sabíamos que era um desafio complicado, mas sabíamos que a equipa tinha jogadores com qualidade para fazer um pouco mais. Sabíamos da história do clube, um clube que, nestes momentos difíceis, se une e consegue, algumas vezes, fazer coisas muito interessantes. Acreditámos que era possível e, felizmente para nós, conseguimos. Tínhamos a noção de que era um objetivo muito complicado, mediante o número de partidas que já tinham sido feitas e o número de pontos que tínhamos.
- Pegando nessa questão da união do grupo, de ser um clube habituado a isto. É um bocado o paralelo com a sua carreira e as suas origens, o trabalhar e subir a pulso. Identificou-se rapidamente com a forma de viver do clube?
Sim, na altura, quando vim para cá, até foi uma das coisas que eu disse. Em termos do que foi a minha vida desde novo, conquistar coisas passo a passo para chegar onde estou agora, encaixava perfeitamente na identidade do clube. Foi uma das coisas que me atraiu. Sinto-me muito bem aqui. É um clube familiar, acolhedor, onde todos trabalham para o mesmo objetivo e te sentes muito bem recebido desde o primeiro minuto.

- A LaLiga era um sonho antigo?
Sim, penso que de todos os portugueses, desde novos.
- Quais são as primeiras recordações?
De sempre? Figo, Baía, (Fernando) Couto, o Mourinho. Tínhamos muitos portugueses aqui a jogar e a treinar, também tínhamos duelos entre equipas portuguesas e espanholas que acompanhávamos muito. Na época, era o melhor campeonato do mundo, aquele com mais visibilidade, e nós, por vivermos no país ao lado, era o campeonato que mais acompanhávamos. Não era o meu sonho chegar aqui porque nunca imaginei chegar aqui, mas era um campeonato que acompanhava e que, quando te tornas treinador e chegas a determinado nível, pensas: "E se um dia acontecer?". Felizmente, tive a sorte de poder vir.
- Ao chegar aqui houve algo que o surpreendesse mais? Muita gente diz que não é o melhor campeonato do mundo, a maior parte das pessoas diz que é o inglês. A nível técnico, este fica muito atrás?
Para mim, não. Se virmos, no século XXI, é o país com mais Ligas dos Campeões, Ligas Europa, em termos de seleções também é o país que tem conquistado mais títulos e por algum motivo é. A Premier League é muito mais mediática e tem o dinheiro que a LaLiga não tem, mas, em termos do jogo em si, na época passada, na mesma jornada de Champions, o Barcelona, o Real Madrid e o Atlético eliminam três equipas inglesas na mesma ronda. A Premier League é muito forte, mas, em termos de qualidade de jogo, tenho uma opinião diferente. Há equipas inglesas que jogam muito bem, mas, no global, penso que a LaLiga tem muitas equipas a praticarem um bom futebol.
- Aqui, salvo raras exceções, grande parte das equipas tenta jogar, não é? O jogo valoriza-se.
Sim, a exceção aqui é não jogar, querer duelos e bolas paradas. Essa é a exceção. O jogo é ao gosto de cada um. Felizmente, não gostamos todos da mesma cor, mas eu sinto-me muito confortável e gosto muito do estilo de jogo da LaLiga.
"Mourinho? Vou jogar com o melhor treinador português de todos os tempos"
- Uma nova temporada a começar de início: o que podemos esperar do Levante?
Podemos esperar, mais uma vez, trabalho. Um clube que vai ter um dos orçamentos mais baixos da LaLiga. Estamos a trabalhar para que no futuro seja diferente, mas quem comprou o clube, comprou com uma dívida financeira muito alta. Em Espanha, o fair play financeiro não permite investir quem tem este tipo de dívidas. Sei que o clube vai trabalhar no máximo, dar tudo. Todas as pessoas estão alinhadas pelo mesmo objetivo. Sabemos que não vai ser fácil, mas sabemos que o podemos alcançar.
- Esta temporada, o objetivo é a manutenção, mas passa por viver mais desafogado do que na época passada?
Esperemos que sim, mas se, ao final da época, o conquistarmos também na última jornada, assino já os papéis. Esperamos consegui-lo mais antecipadamente, com algum conforto, mas se disserem: "Vais conseguir outra vez na última jornada e vais sofrer como na época passada?" Assino os papéis agora.
- Este ano, em termos de treinadores portugueses, há o regresso de José Mourinho. Como treinador mais jovem do que José Mourinho, como será para o Luís Castro estar lado a lado nos bancos com o José Mourinho?
Vai ser um prazer. É uma referência na LaLiga e para todos os portugueses da minha idade. Foi uma referência no princípio da minha carreira, já tive o prazer de o conhecer. Jogar contra ele é um orgulho. Vou jogar com o melhor treinador português de todos os tempos. Jogar contra treinadores deste nível, e felizmente a LaLiga tem muitos, é sempre um orgulho e, sendo português, tem sempre um gosto especial.
Acredito que o Real Madrid vai crescer, agora é preciso também, como em todos os clubes, a estrutura e organização do clube permitirem que isso aconteça. Quando corre mal, é o treinador que vai embora, mas muitas vezes passa por muitas outras coisas que as pessoas desconhecem, ou até conhecem, e não são responsabilidade do treinador.
- Nas últimas duas épocas, o Barcelona dominou em Espanha. Hansi Flick trouxe umas ideias diferentes do passado mais recente do clube. Como olha para este Barcelona e Hansi Flick, a forma como o alemão chegou e colocou a equipa a vencer em Espanha?
Acho que o Hansi Flick foi inteligente. O Barcelona continua a ter muitas coisas que tinha e ficou mais forte em alguns momentos em que não o era. Penso que é uma equipa mais completa. Continua a ter a essência do Barcelona e do futebol espanhol, mas também lhe deu aquilo que, em outros momentos do jogo, o Barcelona não aproveitava tanto e agora é mais forte. Tornou-se uma equipa um pouco mais completa do que vinha a ser, sem perder a essência.

"FC Porto pode ter uma pequena vantagem"
- Olhando para o outro lado da fronteira, continua a acompanhar o futebol português?
Sim, como é evidente.
- Como olha para esta época? Novamente algumas mudanças, o Benfica mudou de treinador, o Sporting com muitas mudanças, o FC Porto a manter a base com o mesmo plantel. Partem todos em pé de igualdade ou há alguma vantagem de alguém?
Costuma dizer-se que quem foi campeão tem uma vantagem porque já vem com uma dinâmica positiva. O FC Porto não mudou muito, o Sporting está a mudar muito, mas, pelo que vi na pré-época, não mudou mal. O Benfica está a tentar mudar, penso que vai demorar um bocado mais tempo, mas qualquer uma das três é candidata. Têm uma estrutura capaz de se organizar para isso e têm jogadores de nível para lutar por títulos. Vai ser apertado como sempre, mas penso que o FC Porto pode ter uma pequena vantagem por não ter mudado muito e ser campeão, mas talvez à 5.ª jornada tudo poderá estar diferente.
- É difícil trazer jogadores portugueses para cá?
Não. Há muitos jogadores portugueses a quererem vir para cá. Temos alguns jogadores que estavam aqui e foram ao Mundial. O Renato (Veiga), o Cancelo, o (Gonçalo) Guedes, o Samu Costa. Temos vários jogadores na LaLiga. Vem o Bernardo agora. É uma liga atrativa, não é complicado, mas, para trazer jogadores portugueses, têm de ser jogadores para acrescentar. Para ser mais um no plantel, temos a nossa academia e esse é um dos objetivos do clube quando me contratou, a aposta na academia. O jogador português tem de ser para acrescentar e que possa fazer a diferença. Existem alguns com esse perfil e depois é necessário que se combinem várias coisas, entre elas o salário e transferência. Tendo um orçamento baixo, não é fácil que o Levante tenha dinheiro para contratar um jogador com nível para a LaLiga. A não ser que a gente cometa alguma loucura.
- Ainda pode acontecer?
Digo sempre que até ao último dia do mercado tudo pode acontecer. Há muita qualidade no jogador português, as portas não estão fechadas, obviamente, e, se houver um que seja do agrado do Levante e do meu agrado, é evidente que vamos tentar.
- Por falar em transferências: no ano passado falou-se muito, este ano ainda se levantou o tema no mês passado, mas parece que não ganhou grande força. A questão do Carlos Álvarez e do Benfica. É um jogador com capacidade para um nível desses?
Tem e acho que vai chegar lá. Não sei se será neste mercado, mas o futuro dele vai chegar aí. O ano passado, foi, de longe, dos melhores jogadores da LaLiga 2. Este ano, teve lesões traumáticas que não permitiram estar sempre a jogar, mas, nos poucos minutos que jogou, notou-se o nível que tem. Na época passada, viu-se o ponta de lança do Almería ir para o Sporting e fazer a diferença que fez. O Carlos, na época passada, foi, de longe, um dos jogadores mais mediáticos e com mais performance na LaLiga 2. Na LaLiga, quando está a 100 por cento, continua a fazer a diferença. Por isso, acredito que possa acontecer.

- Tecnicamente, quem acompanha a LaLiga percebe que é um predestinado. Como é que podia apresentar melhor o Carlos Álvarez?
É um jogador com uma qualidade técnica acima da média, forte no um contra um, no último passe é um jogador com muita capacidade de assistência. Parecendo pequeno, tem também muito bom remate. Na época passada, empatámos 0-0 com o Espanhol e ele faz um remate à barra a 30 metros da baliza. Melhorou defensivamente este ano, na LaLiga 2 não tinha tanto essa necessidade. Tornou-se um jogador mais completo. Connosco faz a diferença e, em equipas que têm mais tempo de bola, são mais ofensivas e jogam mais perto da área adversária, é, sem dúvida nenhuma, um jogador que vai fazer a diferença.
- Encaixaria bem no Benfica?
Sim, em clubes que lutam por títulos, ele tem um perfil de jogador ofensivo que pode fazer a diferença.
