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Há jogadores que vestem uma camisola. E depois há jogadores que vivem para o clube. Isi Palazón, capitão do Rayo Vallecano, é um desses casos. Esta quinta-feira à noite, no Estádio de la Meinau, prepara-se para disputar o jogo mais importante da história do seu clube: a segunda mão das meias-finais da Liga Conferência frente ao Estrasburgo. Tem apenas um golo de vantagem para defender. Uma final em Leipzig ao alcance.
Um apartamento em Vallecas, uma vida de vizinho
Numa realidade futebolística em que as estrelas vivem em vivendas vigiadas em Pozuelo ou La Moraleja, Isi Palazón destaca-se pela simplicidade. Questionado pela revista Panenka sobre onde vive, responde sem hesitar: mora em El Ensanche de Vallecas, o bairro do seu clube. Não numa casa, nem num chalé. Num apartamento. Três quartos, duas casas de banho. E vai para o treino a pé, ou de trotinete elétrica quando não está demasiado frio. "Isto é que é qualidade de vida", afirma sem rodeios.
No verão, desce à piscina comunitária do prédio. Conhece os seus vizinhos, um deles instala ar condicionado, e Isi fica genuinamente contente por o negócio lhe correr bem. Quando faz compras, é no Ahorra Mas ou no Mercadona mesmo por baixo do prédio. Eis o capitão do Rayo Vallecano.

"Um sonho realizado"
Esta ligação ao bairro não é uma estratégia de comunicação. Revela algo mais profundo sobre o que este clube representa para ele. Na entrevista, confessa que comprou uma casa em Villaviciosa de Odón, nos arredores de Madrid, uma casa que descreve como um sonho realizado. O fruto de anos de futebol profissional em que ninguém lhe ofereceu nada. Saiu de Cieza, em Múrcia, onde o seu pai é porteiro numa escola pública e a sua mãe trabalhava numa bolsa de emprego municipal. A família vivia no pátio da escola. As férias eram em Puerto de Mazarrón, a menos de uma hora de carro de casa.
Do Real Murcia às divisões inferiores, depois Ponferradina e, por fim, o Rayo.
"As pessoas renderam-se ao seu pé esquerdo, que é, de certa forma, a sua fábrica de caramelos (para os colegas de equipa)", escreve a Panenka. Mas o que mais impressiona na entrevista não é tanto o talento, mas a consciência: sabe exatamente de onde veio e não quer, de forma alguma, esquecer-se disso.
O homem que não quer ser milionário
"És milionário?", pergunta-lhe o jornalista. "Não". Também não é um objetivo. "Sempre vivemos com pouco", explica. Continua a frequentar os mesmos sítios, a ver as mesmas pessoas. A fama não o mudou e lutou para que assim fosse.
Esta relação com o dinheiro também diz muito sobre a sua ligação ao futebol. Quando a Panenka lhe pergunta se jogar na LaLiga 2 apenas pelo dinheiro lhe interessaria, responde: "Sou feliz no Rayo e em Madrid. Estou perto de casa e das pessoas que amo".
O capitão do povo
Dentro de campo, Palazón é um médio ofensivo canhoto, imprevisível, mestre nas bolas paradas. Foi dele o canto milimétrico que permitiu o golo de Alemão no jogo da primeira mão frente ao Estrasburgo. Um gesto que resume tudo: discreto nas estatísticas, decisivo nos momentos-chave. Esta época na LaLiga, viu 10 cartões amarelos e um vermelho, incluindo uma suspensão de sete jogos por ter chamado o árbitro de "sinvergüenza", um vigarista em português, após um jogo frente à Real Sociedad. Como a sanção só se aplica às competições nacionais, vai mesmo estar presente esta quinta-feira em Estrasburgo.
Na entrevista à Panenka, assume plenamente esse lado: "Gosto de fazer as coisas difíceis". Seja um passe arriscado, um investimento ousado ou uma discussão com o árbitro, prefere sempre assumir do que proteger-se.
Leipzig como horizonte, Vallecas como bússola
Depois do jogo da primeira mão, ao microfone da Movistar+, disse: "Que equipa! Construímos tudo isto ao longo dos anos". Isi Palazón chegou ao Rayo em janeiro de 2020 e nunca mais saiu. Passou por dúvidas, momentos difíceis, épocas menos conseguidas. E agora vê o seu clube a duas vitórias de uma final europeia.
"Por la mañana café, por la tarde ron, llévanos a Leipzig Isi Palazón". Os adeptos de Vallecas cantam por ele como se fosse um dos seus: porque é mesmo. Esta quinta-feira à noite, na Meinau, o vizinho de Vallecas tem encontro marcado com a história.
