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Para perceber a razão pela qual o conflito entre os adeptos do Rayo Vallecano e o seu presidente Raúl Martín Presa é tão intenso, é preciso primeiro compreender o que é Vallecas. Este bairro popular do sudeste de Madrid é um dos poucos locais da capital onde o Partido Popular (direita conservadora) nunca venceu uma eleição. O clube é um caso à parte em Espanha: o Rayo Vallecano não deve a sua fama aos sucessos desportivos, mas sim aos seus adeptos. Com uma identidade operária e antifascista, são eles que garantem que o clube reflete o seu bairro, um dos mais populares de Madrid.
Os Bukaneros, grupo ultra antifascista fundado em 1992, são o símbolo mais visível desta identidade. O nome deriva de uma tradição local: os habitantes de Vallecas reivindicam um "porto" imaginário, a mais de 300 quilómetros do mar, em referência a uma batalha naval anual com jatos de água, realizada todos os anos a 14 de julho desde 1981. Este folclore descontraído esconde uma identidade política muito vincada. Colocar à frente destes adeptos um presidente que representa o oposto dos seus valores foi acender o rastilho num barril de pólvora.
A chegada de Presa: uma aquisição difícil de engolir
Em maio de 2011, Raúl Martín Presa, empresário madrileno nascido em 1977, comprou 98,6% das ações do Rayo Vallecano a José María Ruiz-Mateos. O clube estava então avaliado entre 50 e 70 milhões de euros, mas afogado em dívidas. Algumas fontes estimam que a aquisição terá custado entre 500 e 1.000 euros. Poucas semanas depois, o clube declarou insolvência. Presa apresentou-se como salvador. Os adeptos ficaram desconfiados.
Em 2015, com o objetivo de transformar o Rayo Vallecano numa marca internacional, Presa aventurou-se na multipropriedade ao adquirir uma franquia da NASL, antiga liga norte-americana de futebol entretanto extinta, sediada em Oklahoma City, chamada "Rayo OKC". A experiência durou pouco, mas cimentou o antagonismo entre um adepto do futebol-negócio e adeptos que rejeitam esse caminho. Para uma afición visceralmente ligada ao seu bairro e a uma visão popular do futebol, ver o seu clube transformado numa franquia exportável para o outro lado do mundo é uma traição fundadora. Este episódio marcou o início do fim. Uma "traição" que acabou por destruir a pouca confiança que os adeptos ainda tinham no seu presidente.
O caso Zozulya: a identidade do clube em causa
O conflito entre Presa e os adeptos ganhou uma nova dimensão em janeiro de 2017 com o empréstimo de Roman Zozulya, avançado ucraniano do Real Betis. Os Bukaneros reuniram um dossiê a demonstrar que o ucraniano apoiava milícias neonazis, como o Batalhão Azov, ativas na guerra do Donbass. Mal chegou a Vallecas, o jogador nem teve tempo de calçar as chuteiras e já regressava, perante a hostilidade dos adeptos.
A história não terminou aí. A 15 de dezembro de 2019, quando Zozulya regressou a Vallecas com a camisola do Albacete, foi alvo de insultos vindos das bancadas. Os seus colegas, em solidariedade, recusaram-se a voltar ao relvado após o intervalo, e o árbitro interrompeu o jogo: tratou-se do primeiro encontro da LaLiga interrompido por "racismo". O Rayo Vallecano foi multado em 18.000 euros. Sem surpresa, Raúl Martín Presa tomou partido e condenou publicamente os ultras do seu clube, os Bukaneros, com quem está em guerra há vários anos. Para a direção, os adeptos são o problema. Para os adeptos, foi a direção que traiu a alma do clube.
O estádio do Vox: a provocação que passou dos limites
Presa acusa os adeptos, sobretudo os Bukaneros, de prejudicarem os interesses do clube. Sem se ficar por provocações, convida figuras do partido de extrema-direita Vox, Santiago Abascal e Rocío Monasterio, para a tribuna presidencial. Isto aconteceu em pleno confinamento, num jogo à porta fechada, sem adeptos. No dia seguinte, adeptos reuniram-se em frente ao Estádio de Vallecas para o "desinfetar" simbolicamente. Num comunicado da Plataforma ADRV, Raúl Martín Presa foi apelidado de "idiota útil do fascismo".
A fotografia de Presa a segurar a camisola do Rayo Vallecano, ao lado do líder do Vox, correu Espanha de ponta a ponta. Para uma afición antifascista, foi uma afronta direta à própria identidade do clube.
A guerra do dia a dia: bilhetes de época, segurança, repressão
Além dos episódios mais mediáticos, Presa implementou uma política diária que os adeptos sentem como uma repressão sistemática. Aumento do preço dos bilhetes de época, proibição do material dos Bukaneros, Raúl Martín Presa não poupou nas medidas antissociais e repressivas. Não hesita em instrumentalizar os excessos para marginalizar as franjas mais combativas.
Num jogo decisivo pela manutenção frente ao Maiorca, em 2022, os adeptos ficaram retidos à porta do estádio, sujeitos a revistas mais rigorosas do que nunca, atrasando deliberadamente a sua entrada. Nenhuma bandeira, cachecol ou peça de roupa com o símbolo dos Bukaneros era permitida, levando alguns a entrarem "meio despidos" no frio de fevereiro para poderem apoiar a sua equipa. Um ambiente de cerco no próprio estádio. O clube negou ter tentado impedir deliberadamente o acesso dos adeptos mais fervorosos ao final do jogo, precisamente nessa semana, alegando que a decisão se devia a questões de segurança do estádio.
A equipa feminina: do abandono à ignomínia
A gestão de Raúl Martín Presa em relação à secção feminina do Rayo é um dos capítulos mais negros da sua presidência. O primeiro ataque à equipa feminina traduziu-se em medidas de austeridade orçamental que, no final de 2020, provocaram atrasos significativos no pagamento dos salários. Um novo patamar neste processo de sabotagem foi atingido um ano depois, quando a direção deixou de pagar as rendas das jogadoras, colocando-as em dificuldades perante os senhorios. Os horários de ginásio e o fisioterapeuta foram igualmente suprimidos, consideradas como despesas supérfluas.
O golpe final chegou em janeiro de 2022: Presa nomeou Carlos Santiso treinador da equipa feminina, apesar de terem sido divulgados áudios de WhatsApp em que este brincava com a sua equipa técnica sobre a violação coletiva de uma jogadora, em referência a um caso de agressão sexual a uma menor de 15 anos no Arandina CF. Perante o escândalo generalizado — a jogadora do Barça, Alexia Putellas, a guarda-redes do Atlético, Hedvig Lindahl, o sindicato FUTPRO, o presidente do Conselho Superior do Desporto e todos os partidos políticos madrilenos (com exceção do Vox) condenaram publicamente a decisão — Presa manteve-se irredutível. "Contratamos profissionais, não pessoas", disse.
Santiso pediu desculpa publicamente e manteve-se no cargo. A sua equipa somou apenas 5 pontos em 10 jogos antes da descida de divisão. No domingo, 17 de abril de 2022, perante apenas 70 espectadores, as 19 épocas consecutivas do Rayo Feminino na primeira divisão chegaram ao fim. A equipa, totalmente abandonada pelo dirigente, foi despromovida há duas semanas à quarta divisão, dez anos depois das participações na Liga dos Campeões, com três descidas em quatro épocas.
A crise do estádio: símbolo de uma gestão desastrosa
A época 2025/2026 marca um novo auge da crise. Apesar de um bom arranque de temporada e da qualificação para a Liga Conferência, a primeira aventura europeia em mais de vinte anos, Presa mantém-se em confronto com a LaLiga e os adeptos, após anos de má gestão e falta de investimento no estádio.
O encontro frente ao Atlético de Madrid teve de ser transferido para o Estádio de Butarque, casa do CD Leganés, devido ao estado deplorável do relvado de Vallecas, considerado impraticável, um relvado "nem digno de um nível regional", segundo os próprios jogadores.
A reação dos adeptos não deixou margem para dúvidas. Os Bukaneros apelaram ao boicote do jogo frente ao Atlético: "Adepto do Rayo, ir a Leganés cria um precedente perigoso que permite a Presa justificar a saída do Rayo Vallecano do bairro. Não compres o teu bilhete." O jogo foi boicotado por cerca de 75% dos sócios.
O momento mais marcante ocorreu no jogo frente ao Athletic Bilbao: ao minuto 13, milhares de cartazes "SOS" com as cores do clube invadiram as bancadas para simbolizar o perigo que o clube enfrenta. Esta ação coordenada não é um caso isolado, mas sim mais uma manifestação do esgotamento de uma afición no limite.
Sem bilheteira online, nem loja: um clube "à moda antiga"
Numa era em que até os clubes profissionais mais modestos permitem a compra de bilhetes em poucos cliques, o Rayo Vallecano é uma verdadeira anomalia. O clube madrileno é o único da LaLiga que ainda não tem venda online no seu site, o que prejudica a expansão da marca. A consequência é bem conhecida dos rayistas: de quinze em quinze dias, a Calle Payaso Fofó, rua junto ao estádio, enche-se de longas filas nas bilheteiras para tentar garantir um bilhete.
Esta situação atinge contornos kafkianos nos grandes jogos. Para a meia-final da Liga Conferência, frente ao Estrasburgo, a disputar-se esta quinta-feira, em Vallecas, potencialmente o jogo mais importante da história do clube, a três dias do encontro, os bilhetes ainda não estavam à venda no início da manhã. Centenas de adeptos começaram a formar fila logo na segunda-feira de manhã nas bilheteiras do estádio, sem sequer saberem a que horas os bilhetes seriam disponibilizados.
Quando os preços foram finalmente anunciados à tarde, uma segunda vaga de indignação surgiu: o bilhete mais barato para a curva custava 50 euros, as laterais e preferenciais variavam entre 60 e 125 euros, ou seja, mais caro do que os 20 euros pagos pelos adeptos de Estrasburgo, cujo preço é limitado pela UEFA. O jornalista Carlos Sánchez Blas resume o sentimento geral: "Os bilhetes não estão à venda. Não se sabe quanto vão custar. Dezenas de adeptos fazem fila nas bilheteiras. O proprietário quer pô-los à venda na sexta-feira. É surreal. O que se passa neste clube é indescritível. Que ruína social."
A mudança de estádio: a linha vermelha
A batalha mais recente é talvez a mais existencial. Presa insiste que o Rayo Vallecano tem de mudar para um novo estádio, considerando ser a única opção realista. Esta visão não é partilhada por grande parte dos adeptos, que querem permanecer no seu estádio histórico e defendem que são possíveis melhorias. Para os Rayistas, sair do Estádio de Vallecas é abandonar Vallecas — ou seja, deixar de existir enquanto clube popular de bairro.
O que torna este conflito único no futebol europeu é o facto, raro no futebol moderno, de o plantel ter tomado posição e estar unido com os adeptos. Balneários frios, treinos deslocados, salários em atraso relatados na comunicação social: os jogadores partilham a mesma desilusão.
O conflito entre os adeptos do Rayo e Presa reflete uma tensão mais profunda entre propriedade privada e propriedade de uso dos clubes. "O Rayo somos nós!" repetem em uníssono os adeptos. De um lado, um acionista que detém legalmente as ações de uma sociedade comercial. Do outro, uma comunidade que considera que o clube lhe pertence moral, histórica e culturalmente.
Há mais de dez anos que cada jogo em casa é marcado pelo mesmo cântico dirigido à tribuna presidencial: "Presa, vete ya!" (Presa, vai-te embora). Ele ouve. Ele fica. E a guerra continua.
