“Correu bem, fiz dois quartos lugares. Na primeira corrida, tive uma penalização por um erro meu e, para a segunda corrida, parti do último lugar, consegui recuperar até quarto e mostrei o meu andamento”, afirmou esta quinta-feira o piloto à agência Lusa.
Entre a passada sexta-feira e domingo foi disputada a 55.ª edição do Circuito Internacional de Vila Real, numa pista que, à semelhança do Mónaco, ocupa ruas da cidade e é descrita pelos pilotos como difícil e desafiante.
E a prova de estreia foi exatamente isso para Nelson Silva: a superação de mais um desafio, aos 39 anos.
“Não tive aqui muitos cuidados extras. Sinceramente, não tive. Apenas fui um bocadinho mais à cautela na primeira e na segunda sessão, mas, depois, quando vi que aquilo estava a correr bem e que já quase conhecia o circuito de olhos fechados, fui com tudo”, salientou.
A preparação da pista foi também feita num simulador.
O próximo desafio será competir no Estoril, em novembro, e, depois, fazer todo um Campeonato de Velocidade de Portugal (CPV) Legends para o que precisa, também, de arranjar patrocinadores.
“Os tempos mostram que tenho andamento para andar no segundo lugar”, contou.
No final da prova, em Vila Real, disse que sentiu “um misto de emoções”: “É muito difícil de explicar, principalmente para mim, dada a minha condição física, poder ser competitivo”, reconheceu.
Além de piloto, Nelson Silva também é mecânico e entrou no circuito de citadino ao volante de um Citroën C1 na categoria 1.300 do CPV, preparado por si, tendo ainda contado, em Vila Real, com a ajuda do irmão e de um amigo, que “de mecânica não sabem nada”.
“E as coisas correram impecavelmente bem”, realçou. Em consequência já recebeu um convite para, no próximo fim de semana, participar, com o carro, num evento organizado por uma associação de pessoas com deficiência.
A decisão de competir em Vila Real foi tomada há apenas três meses, mesmo contra os conselhos de amigos, e a adaptação do carro para a prova foi mínima.
“A única coisa que eu fiz foi pôr a embraiagem na mão e travo e acelero com o pé, no entanto, eu conduzo aquele carro e gosto de conduzir sem adaptação, ou seja, o pé faz os três pedais”, explicou.
Nelson Silva vive em Sintra, no distrito de Lisboa, e teve um acidente de moto há cerca de 20 anos, tendo perdido a perna direita e enfrentado uma recuperação lenta e gradual.
Hoje conduz carros, motos, anda de bicicleta - sem qualquer adaptação e sem prótese - e comprou um kart para estar entretido, mas só depois de o adquirir pensou na forma de o conduzir.
Ao fim de dois ou três anos, concluiu que a melhor solução era “aumentar o pedal do acelerador para junto do travão e com o mesmo pé travar e acelerar, como se fosse um carro de caixa automática”.
“Foi ao que me adaptei melhor e consegui ser também mais competitivo”, frisou.
Depois do kart comprou o carro, participou em alguns track day (dia de pista), eventos em autódromos ou pistas fechadas onde entusiastas podem conduzir os seus próprios carros ou motas, até decidir entrar numa competição automóvel.
“E, de um momento para o outro, estou em Vila Real”, realçou.
Nelson Silva tem uma microempresa de costura criativa, em que trabalha com a mulher, lidera uma equipa de competição de karts, que marca presença nos campeonatos nacionais, e dá formação, atualmente, a cinco jovens pilotos, divididos em dois campeonatos.
“Tudo o que eu faço é um desafio. Ou é um desafio difícil, ou então não faço”, afirmou.
A edição 2026 do Circuito Internacional de Vila Real atraiu cerca de 150 pilotos, que participaram em 12 provas de seis categorias, onde se destacam o TCR World Tour, que substituiu a Taça do Mundo de Carros de Turismo, e ainda os CPV e o Campeonato de Portugal de Clássicos.
