“Depois de 10 anos fora, para cumprir com um repto de criar mais gente no basquetebol da Ásia, achei que voltar a Portugal, com um espírito de missão, um espírito de dedicação à minha modalidade, só faz sentido se servir também para fazer melhor o nosso basquetebol, para transformar o nosso basquetebol, para fazer coisas diferentes, porque 10 anos como vice-presidente da NBA ensinaram-me muita coisa e tudo isso só faz sentido se eu o devolver ao meu país. Lidei comigo mesmo ao espelho para tomar esta decisão e estou honrado e grato de o ter feito”, assumiu.
Em entrevista à agência Lusa, Carlos Barroca, de 67 anos, lembrou o passado como jogador, treinador e dirigente para dizer que “há 62 anos” vive a modalidade, que faz 100 anos em Portugal em 2027, admitindo que gostaria “que ainda fosse mais longe e tivesse mais praticantes, que tivesse melhores comportamentos, que fosse mais transparente e uma modalidade absolutamente aberta à sociedade”.
Carlos Barroca defende que é necessário fazer “crescer a base dos praticantes” e garante que “há uma estratégia ligada naturalmente à escola, ao desporto escolar”, assumindo que, “se é verdade que alguns dos escalões mais baixos servem basicamente para fazer crescer a modalidade, a partir de certa altura tem de haver a capacidade de criar mais talento”.
“E porquê criar mais talento? Porque queremos criar um sistema sustentável para a modalidade de ter não só uma presença errática nos campeonatos de Europa, quer masculino, quer feminino, mas ter uma presença mais constante”, disse.
Carlos Barroca deu o exemplo da Alemanha, que, apesar de ter tido um dos melhores jogadores do mundo, Dirk Nowitzki, nunca tinha ganhado nada, mas que “soube construir um sistema, com certificação, com profissionalização, com medidas concretas”, passando “de uma seleção marginal para uma seleção que é campeã da Europa e campeã do mundo”.
“Nós temos de ter a nossa criatividade, temos de ter a nossa cultura, mas também temos de ter alguma capacidade de importar modelos que nos interessam e que são referências, de que é possível fazer mais e chegar mais longe. Isto nomeadamente a partir dos 16, 18 anos, ter capacidade de ter campeonatos mais competitivos”, assumiu.
Esta competitividade pode trazer consequências, sobretudo financeiras, porque, para haver campeonatos mais competitivos, mais jogos, é necessário “também investir mais na capacidade dos clubes poderem responder a essa medida”, lançando a possibilidade de prémios monetários às equipas pela conquista de troféus.
Depois de a FPB ter apresentado resultados negativos em 2025, Barroca garante já ter assegurado, servindo-se “de uma coisa que é a credibilidade" (...) 10 novos patrocinadores, que vão investir 1,5 milhões de euros por ano no quadriénio 2026-2030.
Carlos Barroca lembrou uns anos 90 marcantes para o basquetebol português, “porque apareceu o produto NBA” nas televisões, tornando-a “a modalidade mais popular e as consequências disso foram muitas, pavilhões cheios, a primeira liga profissional, primeira escola de treinadores, primeira associação nacional de treinadores de basquetebol”.
Com 2025 a ser considerado “como o ano de ouro do basquetebol português, porque a seleção masculina foi a uma fase já de eliminação (do Europeu), a seleção feminina foi pela primeira vez ao Campeonato da Europa e as sub-19 foram ao campeonato do mundo”, já depois de Neemias Queta ter sido campeão da NBA, Carlos Barroca estranha que a FPB não o tenha aproveitado.
“Temos o relatório de contas que nos diz que neste ano de 2025 não houve nenhum aumento significativo do ponto de vista comercial de vendas em consequência destes episódios, que normalmente são spikes que levam atrás o interesse pela modalidade. E, talvez pior que isso, ou em paralelo a isso, num número mais ou menos redondo, são menos 500 praticantes que no ano anterior, o que significa que, do ponto de vista de estratégia, do ponto de vista de cuidar do produto, do ponto de vista de elevar o produto através deste spike de interesse pela modalidade, o trabalho não foi feito”, lamentou.
Carlos Barroca quer apostar igualmente em “criar mais competência” ao nível dos treinadores e lança também a criação do cargo de diretora técnica nacional para o basquetebol feminino, cargo que será ocupado por Isabel Ribeiro dos Santos.
“Eu não quero a federação rica, nem quero a federação com os saberes todos. Quero uma federação com capacidade para ajudar a desenvolver os clubes e a modalidade e uma federação que tenha capacidade de ouvir, de ir ao terreno, de espreitar aquilo que acontece”, concluiu Barroca, que disse ainda ser cedo para falar da organização de um grande evento, que, contudo, não descarta no futuro – “está no meu ADN fazer esse tipo de coisas”.
Barroca apresentou ainda o projeto da Cidade do Basquetebol – um “nome ainda provisório” –, que acredita que “vai dinamizar o basquetebol português” e que “será também a casa das seleções nacionais, sejam masculinas, femininas, de formação, 3x3 ou cadeira de rodas”.
“Vai ter um pavilhão desportivo com 3.000 lugares sentados e três campos laterais, campos exteriores semicobertos, incluindo para 3x3, um centro de estágios com 180 camas, um auditório com 500 lugares e diversos espaços polivalentes. Todos equipados com as tecnologias mais avançadas, utilizadas nas melhores ligas mundiais como, por exemplo, a NBA”, afirmou.
Carlos Barroca lidera a Lista C às eleições de 25 de abril, com João Carvalho, atual secretário geral da FPB, a ser o candidato da Lista A, sendo que a Lista B, encabeçada por Valdemar Cabral, concorre apenas ao Conselho de Arbitragem.
