Continuam a suceder-se as reações contrárias ao plano da FIFA para vender ações do Campeonato do Mundo. Carlos Cordeiro, principal conselheiro de Gianni Infantino desde maio de 2025, anunciou a saída do organismo que regula o futebol mundial, em desacordo com os novos planos.
“Deixem-me ser claro: Não tive qualquer envolvimento nesta proposta e sou contra ela, de forma inequívoca. É um mau negócio para as associações da FIFA, para o futebol e o futuro a longo prazo do jogo”, começou por escrever no LinkendIn o antigo presidente da Federação Norte-Americana de Futebol, deixando um recado: “A responsabilidade da FIFA não é maximizar os lucros, mas sim proteger e reforçar o futebol para as futuras gerações. Se existir um conflito entre estes princípios, o futebol deve sempre vir em primeiro lugar”.
Recorde-se que a UEFA, CONCACAF E AFC já demonstram total desacordo com esta medida. São 143 das 211 associações da FIFA, o que coloca em causa a aprovação do plano.
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Leia o comunicado na íntegra:
Na qualidade de Conselheiro Sénior do Presidente da FIFA, ex-banqueiro e adepto de futebol de longa data, não posso ficar de braços cruzados enquanto a FIFA pondera vender uma participação no Mundial.
Deixem-me ser claro: não tive qualquer envolvimento nesta proposta e oponho-me a ela de forma inequívoca. Trata-se de um mau negócio para as Federações-Membro da FIFA, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro a longo prazo deste desporto.
O futebol tem sido fundamental na minha vida e, após mais de 35 anos no setor bancário, compreendo tanto o valor deste ativo como as consequências de ceder parte dele. É por isso que esta proposta deve ser rejeitada.
A FIFA já tem acesso a recursos financeiros extraordinários. A organização dispõe de milhares de milhões de dólares em reservas e não tem dívidas. O próprio presidente da FIFA destacou os 15 mil milhões de dólares de receitas geradas entre 2022 e 2026. Se as Federações-Membro consideram que é necessário investimento adicional para desenvolver o desporto, a FIFA já tem capacidade financeira para prestar esse apoio a partir dos seus recursos existentes. Neste contexto, vender uma participação permanente no ativo mais valioso do futebol para angariar 4,2 mil milhões de dólares faz pouco sentido. Trata-se de hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificação convincente.
Esse sucesso económico não foi fruto do acaso. Foi alcançado por profissionais experientes do futebol que bateram os recordes comerciais da FIFA. No entanto, apesar dessas conquistas, pede-se agora à FIFA que acredite que são necessários investidores externos para gerar maior valor. Não aceito essa proposta. As pessoas que construíram este sucesso já demonstraram que a FIFA possui os conhecimentos especializados necessários para continuar a fazer crescer tanto o desporto como o seu futuro comercial.
O mais preocupante de tudo é a ausência de respostas a questões fundamentais. Porquê este acordo? Porquê agora? Que mecanismos de supervisão existem? Quem beneficia? Houve um processo concorrencial? Que estrutura de governação será implementada? O que irão os investidores ganhar, em última análise, e a que custo para o futebol?
Estas questões permanecem, em grande parte, sem resposta e, no entanto, está a ser pedido às Federações-Membro que tomem uma decisão de enormes consequências em apenas 50 dias, sob pena de ficarem para trás. Essa não é uma forma responsável de determinar o futuro do desporto mais popular do mundo.
Esta proposta tornou-se uma questão determinante para o futuro da FIFA. Após uma reflexão cuidadosa, não posso continuar a desempenhar as minhas funções como Conselheiro Sénior do Presidente da FIFA. Por conseguinte, apresentei a minha demissão com efeito imediato.
A responsabilidade da FIFA não é maximizar os rendimentos comerciais a qualquer custo. É proteger e fortalecer o futebol para as gerações futuras. Quando esses princípios entram em conflito, o futebol deve estar em primeiro lugar.
Foi um privilégio único ter servido a FIFA durante mais de cinco anos e ter trabalhado ao lado de pessoas dedicadas e íntegras, que se preocupam profundamente com o futebol. Espero que elas também se manifestem, porque decisões desta magnitude devem ser tomadas no interesse do futebol, e não daqueles que pretendem lucrar com ele.
