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Depois de 17 anos no Benfica, onde ajudou a formar talento e a consolidar uma identidade de jogo, Filipe Coelho decidiu sair da "zona de conforto" para procurar novos desafios. O percurso levou-o ao Estoril, onde conquistou a Liga Revelação e a Taça Revelação, depois ao Chelsea e, atualmente, ao Estrasburgo, onde integra a equipa técnica de Gary O’Neil.
Numa conversa exclusiva com o Flashscore, o treinador português revisita as raízes no Seixal, explica de que forma a passagem pelos encarnados moldou a sua visão do futebol e deixa elogios fortes a João Neves, que considera "talvez o talento mais eclético" com quem trabalhou.
Do presente em França ao sonho de regressar um dia a Portugal como treinador principal, Filipe Coelho fala ainda sobre o valor do treinador português no estrangeiro, o crescimento do Estrasburgo e a ambição de conquistar a Liga Conferência.

"Passagem pelo Benfica marcou muito a minha ideia de jogo"
- Passou 17 anos no Benfica. O que é que esse período moldou em si, não só como treinador, mas como líder e homem de futebol?
Sou o que sou hoje, essencialmente, por tudo aquilo que vivi dentro do Benfica. Obviamente, deu-me muito, mas também dei muito às pessoas que se cruzaram comigo. Foi um crescimento em conjunto. Um clube como o Benfica oferece oportunidades únicas: boas competições, torneios no estrangeiro, jogos contra as melhores academias do mundo. Tudo isso dá uma experiência, uma base e um background riquíssimos, que nem sempre são mensuráveis no currículo.
- Foram muitos anos na formação do Benfica. Essa passagem ensinou-o mais a ganhar ou mais a formar?
Aprendi que, se formarmos bem, estamos muito mais próximos de ganhar com consistência. Foi isso que aprendi. Hoje, quando vejo alguns projetos, identifico-me muito com aqueles que conseguem dar algum tempo. Claro que o tempo é relativo: se não houver resultados, não há tempo que salve nada.
Mas há projetos que dão um pouco mais de margem e, a longo prazo, nota-se essa sustentabilidade. No Benfica, a pressão de ganhar existe sempre, desde os sub-10 até à equipa sénior. Mas aprendi, acima de tudo, que formando bem, com atenção ao detalhe, com atenção às pessoas, com conteúdo e conhecimento técnico elevado, estamos muito mais próximos da vitória.

- Essa passagem pelo Benfica influenciou certamente a sua ideia de jogo. Mas os últimos anos, primeiro no Estoril, depois no Chelsea e agora no Estrasburgo, também terão aprimorado essa visão. Como olha hoje para a sua ideia de jogo?
Não posso esconder que a passagem pelo Benfica marcou muito a minha ideia de jogo. O controlo com bola, a capacidade de dominar o adversário e a preparação para a perda em zonas altas são traços que trago daí. Ao mesmo tempo, trabalhei com treinadores muito competentes, como Renato Paiva e Luís Nascimento, que me deram também bases importantes a nível defensivo. A minha visão atual nasce dessas vivências, mas também daquilo que fui experimentando ao longo do caminho. A formação acaba por ser um laboratório muito rico.
Desde cedo comecei a explorar a construção a partir do guarda-redes e a ideia de olhar para o momento ofensivo como um 11 contra 10, criando superioridades desde trás. No Estoril também conseguimos desenvolver muito isso. Mas acima de tudo gosto de dar inteligência aos jogadores para interpretarem o jogo no momento. Não sou defensor do jogo curto por si só. Sou defensor de aproveitar vantagens. Se a vantagem está na última linha, temos de chegar lá rápido.
No Chelsea senti que consegui consolidar ainda mais essa ideia. Em Inglaterra havia mais espaço para experimentar e os dados também têm um peso maior na análise, algo que me enriqueceu bastante. Hoje, quero uma equipa dominadora, preparada para a perda, agressiva sem bola, mas também capaz de defender bem quando necessário. Acima de tudo, uma equipa com identidade, prazer no jogo e que valorize os jogadores.
- Há a ideia, há o modelo, mas também existe a gestão humana, sobretudo em equipas com jogadores jovens. No futebol atual, o que pesa mais: a ideia de jogo ou a gestão humana?
A ideia é fundamental. Organiza, estrutura e serve de base a tudo. Mas depois são as pessoas que a executam. Se não houver ligação humana, torna-se muito difícil resultar. Hoje, a gestão humana tem ainda mais peso, porque o jogador não é apenas o jogador. Há todo um contexto à sua volta, com diferentes influências e necessidades, e o treinador tem de saber gerir isso.
A ideia continua a ser o esqueleto do projeto, mas à frente dela estão jogadores e todos os processos do dia a dia de um clube. É preciso ligar tudo da melhor forma. Se a sensibilidade humana for esquecida, o treinador dificilmente sobreviverá no futebol atual.

O exemplo João Neves: "O talento mais eclético que conheci"
- Trabalhou com muitos talentos nos últimos anos. O talento nasce ou constrói-se diariamente?
O talento é um ponto de partida. Há jogadores com mais talento natural do que outros, mas constrói-se todos os dias. O ambiente competitivo, a qualidade do treino e o contexto que criamos podem fazê-lo crescer ou travá-lo. Nesse sentido, o papel dos treinadores e do staff é determinante.
Mas o talento existe a vários níveis. Nem tudo passa pelo requinte técnico. Há jogadores com talento para trabalhar, para competir, para estar em equipa e potenciar outras capacidades. As equipas não se fazem apenas com um tipo de perfil. Fazem-se com diferentes características, e saber juntar tudo isso é sinal de uma boa estrutura e de uma boa equipa.
- E que jogadores mais o surpreenderam ao longo do percurso?
É fácil falar dele, porque já o disse várias vezes: o João Neves foi talvez o talento mais eclético que conheci. Eclético porque sabe fazer praticamente tudo a nível desportivo. As vivências que teve, como jogar à bola na praia no Algarve, deram-lhe uma bagagem técnica fora do normal. Depois, teve a inteligência de adaptar a sua estrutura física ao jogo, o que lhe deu uma enorme capacidade competitiva.
A paixão que tem, a inteligência e a forma como vive o dia a dia fazem dele um exemplo para todos os outros. O que está a alcançar hoje não me surpreende.

- Nessa altura, já era possível perspetivar aquilo que João Neves viria a ser hoje?
Não há bolas de cristal. O scouting e os treinadores fazem o melhor trabalho possível, mas não existem certezas absolutas. No caso do João Neves, pelo perfil mental, pela paixão, pela qualidade e pela versatilidade, via-se um miúdo que não olhava para obstáculos. Não via problemas, via soluções. Ao longo da formação foi sempre muito consistente. Nunca houve grandes oscilações no rendimento, e por isso existia uma aposta clara nele. A principal dúvida para alguns poderia ser a questão física e a adaptação ao futebol sénior.
Mas eu continuo a acreditar que o cérebro é mais importante do que o físico. O João, mesmo não sendo um jogador alto, sempre teve impacto em vários momentos do jogo, até em bolas paradas, pela leitura que fazia e pela impulsão que tinha. Tudo isso, aliado ao contexto familiar, ajudou a moldar o jogador que é hoje. Trabalhei com ele nos sub-14, sub-15 e sub-17, por isso tenho um carinho especial. A humildade que sempre demonstrou foi exemplar e a presença dele elevava toda a equipa.

"A minha vocação é ser treinador principal"
- Depois de tantos anos na formação do Benfica, decidiu sair da zona de conforto, foi em busca de outros estímulos, teve sucesso no Estoril, venceu a Liga Revelação e a Taça Revelação, depois saiu para o Chelsea e agora está no Estrasburgo. Olhando para trás, foi a melhor decisão para o momento que vivia?
Sim, tocou num ponto importante: a zona de conforto. Estar muitos anos no Benfica obriga-nos a desafiar constantemente a nós próprios para não cair nela. É um contexto exigente, mas também muito rico, rodeado de pessoas competentes e com crescimento diário.
Mas eu não queria ficar conotado apenas como treinador de formação. Queria dar outro salto e o Estoril apareceu no momento certo. Deu-me essa oportunidade e, ao mesmo tempo, permitiu ganhar. Sabemos que, quando se ganha, o treinador é mais valorizado, e os títulos deram visibilidade ao trabalho que fizemos.
O Estoril tinha um contexto competitivo muito bom e guardo enorme carinho pelas pessoas e pelo clube. Essa visibilidade abriu-me depois a porta ao Chelsea, para liderar os sub-21.
No processo, houve uma grande identificação entre a minha ideia de jogo e aquilo que procuravam, muito próxima da linha do Enzo Maresca: construção desde trás, criação de superioridades e presença forte no último terço. Mas gosto sempre de sublinhar que não foi só a forma de jogar. Foi também a forma de estar, os valores e aquilo que procurei transmitir em termos de cultura.
- Outra decisão marcante foi a passagem de treinador principal para treinador adjunto, função que desempenha atualmente. Porquê essa decisão? Sentia que precisava dessa experiência para enriquecer o seu percurso?
Sem dúvida. Com exceção do primeiro período no Benfica, em que fui adjunto do Renato Paiva e do Luís Nascimento, fui sempre treinador principal. Ao longo do tempo senti que seria importante viver uma experiência como adjunto, para fazer um zoom out, observar outras lideranças, outras dinâmicas e enriquecer-me noutro papel. Foi isso que procurei, sem nunca perder de vista aquilo que quero para o futuro: voltar a ser treinador principal.
Apesar de sentir que acrescento valor onde estou, primeiro com Liam Rosenior e agora com Gary O’Neil, também confirmei que a minha vocação é ser treinador principal. É aí que sinto estar a minha paixão e o meu caminho. Ao mesmo tempo, estou muito bem neste contexto, a aprender com pessoas muito competentes. E o facto de, num só ano, ter vivido dois estilos de liderança diferentes tornou esta experiência ainda mais enriquecedora.

- Sem desmerecer o momento atual e com o máximo respeito pelo clube onde está, sente que, se surgisse um convite a curto ou médio prazo para voltar a Portugal como treinador principal de um clube da Primeira Liga, estaria preparado?
Sim, estou preparado. Naturalmente, existe a questão do UEFA Pro, que é o selo necessário para abrir determinadas portas. Não preciso dele para me sentir preparado, mas reconheço a importância que tem no contexto atual. Não quero dar passos que obriguem clubes a contornar regras ou pagar multas. Quero respeitar esse processo e aproveitar bem o tempo na função em que estou.
Voltar a Portugal seria sempre algo especial. Não digo que seja uma prioridade absoluta, porque a minha prioridade é a família. Felizmente, casa é onde a família está, e têm acompanhado todas as etapas do meu percurso.
Portugal é o meu país, o meu orgulho, e foi onde tudo começou. Se surgir o contexto certo, sinto-me mais do que preparado para liderar.
- O UEFA Pro tem sido um tema muito debatido em Portugal. Sentiu que essa questão travou alguma oportunidade? Ou acredita que o mercado começa a olhar mais para a competência do que para os rótulos?
O UEFA Pro é fundamental. É o título exigido para treinar ao mais alto nível e eu quero cumprir esse percurso. Tirei o UEFA A em 2016/17 e depois tentei entrar no UEFA Pro em Portugal várias vezes, além de tentativas no País de Gales e em Inglaterra.
Os critérios em Portugal são claros e, quando nos candidatamos, sabemos ao que vamos. Eu percebia que dificilmente entraria, porque havia requisitos que não reunia. Candidatei-me também para mostrar à Federação Portuguesa de Futebol que estava a tentar.
Se isso me fechou oportunidades? Acredito que, se tivesse o UEFA Pro há mais tempo, talvez estivesse hoje como treinador principal. Mas também valorizo muito o presente. Muitas das experiências que vivi entretanto, e que me enriqueceram bastante, talvez não tivessem acontecido.
Estou orgulhoso do meu trajeto. Fui ultrapassando obstáculos com proatividade e procurando portas noutros contextos. Felizmente, a Federação da Letónia abriu-me essa porta e comecei o UEFA Pro na semana passada.
- Já trabalhou em Inglaterra e em França. Como sente que o treinador português é visto lá fora?
Tive a felicidade de perceber, no Chelsea, que o nome de José Mourinho continua muito presente. Foi muito através dele e da sua equipa técnica, também com o impacto importante de Rui Faria, que se abriram portas para os treinadores portugueses. Depois disso, os treinadores portugueses continuaram a mostrar capacidade e mérito para estar nesses contextos. Eu, muitos anos depois, acabei por aproveitar também essa onda.
O treinador português adapta-se muito bem. Para além do conhecimento, tem grande capacidade de adaptação, flexibilidade tática e uma forma muito positiva de se relacionar com as pessoas. Essa componente humana acrescenta valor em qualquer contexto. E isso não acontece só no futebol. Conheci portugueses noutras áreas, em posições de liderança e com grande impacto. Senti essa competência portuguesa no estrangeiro e fico contente por representar um pouco dessa comunidade lá fora.

O novo capítulo no Estrasburgo: "Nunca senti falta de identidade no clube"
- Falando agora do Estrasburgo, como tem sido a sua integração numa região como a Alsácia, numa cidade tão particular, e como vive o dia a dia com a família e o trabalho no clube?
A cidade é fantástica. É pequena, mas lindíssima, e recebeu-nos muito bem, a mim e à minha família. O presidente, Marc Keller, e o François, diretor da academia, tiveram também um papel importante na integração dos meus filhos nas escolas, algo que pesa muito numa decisão destas.
Foi uma decisão difícil sair de Inglaterra para França, até porque o meu filho mais novo tinha acabado de nascer. Mas, em termos familiares, a adaptação acabou por ser mais simples, porque a minha mulher tem raízes francesas, estudou no Liceu Francês em Lisboa e fala fluentemente. Hoje, os meus filhos já brincam em francês entre eles e, provavelmente, já falam melhor do que o pai. A adaptação foi muito boa.
- Qual é a sua área de influência dentro da equipa técnica do Estrasburgo?
A minha área de influência não mudou muito desde a experiência com o Liam Rosenior. Vim para aqui com o propósito de trazer uma voz diferente à equipa técnica e foi com esse intuito que aceitei o desafio.
Na semana de trabalho procurei acrescentar valor em várias frentes. A facilidade em falar espanhol ajudou-me a criar ligações com alguns jogadores, como Kendry Páez, Valentín Barco, Joaquín Panichelli ou Julio Enciso, e tive também presença frequente em reuniões individuais.
Depois, a minha intervenção esteve muito ligada à vertente ofensiva, sobretudo na análise de debilidades do adversário e na forma como podíamos explorar melhor o último terço.
Com a chegada de Gary O’Neil, naturalmente entrou gente da confiança dele, mas desde o início senti que a minha opinião foi valorizada. Como eu já conhecia o grupo, isso também ajudou.
Hoje sinto que acrescento valor na preparação estratégica do jogo, na leitura das características dos jogadores e na componente ofensiva. O Gary tem uma identidade muito clara, mas sabe adaptar-se bem ao adversário. Também no treino vou tendo alguma liberdade de planeamento, sobretudo em questões ofensivas.

- O Estrasburgo mudou de treinador durante a época: saiu Liam Rosenior e entrou Gary O’Neil. Na sua opinião, qual é a verdadeira identidade do Estrasburgo? Houve uma mudança de identidade ou uma continuidade?
Antes de falar dos treinadores, há um ponto importante: nunca senti falta de identidade no Estrasburgo. Apesar das críticas de alguns adeptos à multipropriedade, o clube mantém a sua essência. O presidente, Marc Keller, continua no cargo, o estádio está a crescer e há jogadores da academia com espaço regular na equipa - Abdoul Ouattara e Samir El Mourabet. Isso mostra continuidade.
Na minha opinião, a mudança de propriedade ajudou o clube a atingir um patamar que seria difícil alcançar de outra forma.
Quanto aos treinadores, senti que estou a beber de duas lideranças diferentes. Liam Rosenior destaca-se muito na comunicação e na gestão humana. Gary O’Neil tem um detalhe maior na componente tática e nos princípios de jogo. No fundo, são dois excelentes treinadores, cada um com características próprias.
A nível defensivo, talvez estejam as maiores diferenças. Com o Liam havia uma abordagem mais agressiva, homem a homem. Com o Gary surgiu uma estrutura mais protegida, com maior segurança na linha defensiva, sem perder agressividade.
Ofensivamente, não vejo grandes diferenças. Talvez haja alguma maior liberdade estrutural e certas nuances na ocupação dos espaços.
A forma como Gary e a sua equipa chegaram foi muito inteligente: trouxeram impacto com ideias novas, mas souberam manter o que já estava bem feito. Para mim, isso também tem sido uma experiência muito enriquecedora.
- Desde que chegou, em que aspeto sente que o Estrasburgo mais evoluiu futebolística ou taticamente?
Volto à abordagem defensiva, porque foi talvez a maior mudança. Deixou-se uma lógica tão marcada de homem a homem, muito intensa e dependente dos duelos individuais, para uma estrutura com maior precaução e mais segurança na linha defensiva, com superioridade numérica nessa zona. Isso não nos fez perder agressividade na pressão alta, que continua a ser uma característica da equipa, mas trouxe outro equilíbrio.
O Gary traz também a experiência da Premier League, em contextos exigentes de luta pela permanência, e essa bagagem acrescentou conhecimento importante. Hoje, os jogadores juntam duas valências: a capacidade de pressionar de forma agressiva e esta nova organização defensiva. Isso dá-nos mais soluções e mais facilidade para adaptar o comportamento consoante o jogo.

"Joaquín Panichelli trabalha como poucos"
- Houve algum jogador que o tenha surpreendido em particular desde a sua chegada?
Certamente vários, mas se tiver de escolher um nome digo Joaquín Panichelli, até porque infelizmente já não pode jogar esta época. Toda a gente conhece o que ele mostra em campo, mas valorizo ainda mais aquilo que se vê no dia a dia. É um miúdo fantástico, com uma ética de trabalho enorme e um exemplo para todos. Muitas vezes era usado internamente como referência, pela forma como trabalhava e como defendia a equipa em todos os momentos.
Depois, dentro da área, tem talento natural para finalizar e acredito que vai atingir outros patamares. Infelizmente sofreu uma grave lesão no joelho, o que foi uma perda importante para nós e sobretudo para ele. Mas não tenho dúvidas de que vai ultrapassar este obstáculo. Se tenho de escolher um nome, o Pani é consensual aqui.

- E a nível institucional, houve algo no Estrasburgo que o tenha surpreendido?
O clube tem uma estrutura familiar, ainda pequena, mas em claro crescimento. As obras continuam, os espaços estão a evoluir e sente-se esse progresso no dia a dia. Vindo de cidades como Lisboa e Londres, onde a paixão se divide por muitas realidades, o que mais me surpreendeu aqui foi perceber que há praticamente um só clube. As pessoas vivem muito o Estrasburgo e o fim de semana gira muito em torno dos jogos em casa.
O estádio enche regularmente com mais de 30 mil pessoas e isso também se sentiu esta época nas competições a meio da semana. Há uma paixão muito forte pelo clube. O ambiente no estádio é fantástico. Mesmo com os protestos iniciais dos ultras, sente-se bem o impacto que têm na energia passada para dentro do campo.

"Quando olhamos para o Rayo, vemos muito do Bournemouth"
- Na semana passada perderam com o Nice na Taça de França. Já começaram a trabalhar os erros cometidos antes do jogo importante com o Rayo Vallecano?
Sim. O treino serve para isso: corrigir erros, potenciar as nossas melhores características e evitar que essas situações se repitam.
O Nice apresentou uma abordagem diferente da que tinha mostrado no campeonato, com uma linha de cinco, algo que já esperávamos. Tivemos domínio com bola, mas não fomos eficazes nas oportunidades da primeira parte. O adversário aproveitou alguns erros nossos e acabou por seguir em frente. Não sentimos que a melhor equipa tenha passado à final, mas no futebol passa quem marca mais golos. Por isso, mérito ao Nice.
Agora o foco está em corrigir esses detalhes e preparar o próximo desafio. O jogo com o Rayo será diferente, porque é uma eliminatória a duas mãos, e já vivemos isso frente ao Mainz, quando fomos dominados na Alemanha e muito fortes depois em Estrasburgo.
- Quando se prepara uma eliminatória a duas mãos, o trabalho é diferente de um jogo único, como na Taça de França?
Não diria que seja muito diferente. Há algumas nuances, mas quando o processo está bem consolidado, a base mantém-se. O que muda mais é a mensagem aos jogadores, porque numa eliminatória a duas mãos existe sempre a noção de que há tempo para corrigir algo na segunda partida.
Contra o Mainz, por exemplo, em casa tivemos uma abordagem diferente. A forma como queremos atacar está sempre ligada à forma como defendemos, e ajustámos isso em função do contexto. Estávamos em desvantagem e tivemos de assumir mais risco. Conseguimos anular pontos fortes do adversário, criar muitas oportunidades e dominar o jogo.
Essa é talvez a principal diferença numa eliminatória: perceber o que aconteceu na primeira mão e adaptar a segunda de acordo com o resultado e com aquilo que o jogo pede. Agora vamos ver como será frente ao Rayo.
- Como olha para o Rayo Vallecano nesta época europeia? Na liga tem sido mais complicado, mas a temporada na Liga Conferência é histórica.
Sem dúvida. Há aqui um ponto importante: Gary O’Neil tem muito mérito nesta preparação. Conhece bem certos traços do Rayo, até pelas ligações entre a ideia atual de Iñigo Pérez e aquilo que Iraola levou depois para o Bournemouth. Quando olhamos para o Rayo, vemos muito do Bournemouth. E o nosso treinador conhece muito bem essas pontes entre as duas ideias.
Não digo que isso seja uma vantagem, mas existe conhecimento sobre comportamentos e dinâmicas que podem ser importantes para preparar o jogo. A experiência que o Gary traz da Premier League também acrescenta valor nesse processo.
Sabemos que o Rayo é uma equipa competitiva, física e agressiva, que cria mais oportunidades do que aquelas que concede. Tem um jogo muito direto e sabe exatamente porque o utiliza.
Temos de estar alerta e preparados para aquilo que o jogo em Vallecas vai exigir. Depois, a segunda mão em casa pode ser importante, como já se viu frente ao Mainz, onde fomos muito fortes em Estrasburgo.
- Sente que o Estrasburgo pode ganhar a Liga Conferência?
Sentimos, tal como certamente sente o Rayo, o Crystal Palace e o Shakhtar. Já demos muitos passos para estar aqui, mas agora o foco total está em Madrid. O primeiro objetivo é fazer um bom jogo e conseguir um resultado positivo. Esse é o passo necessário para podermos continuar a sonhar com a final na Alemanha.
Sinto que podemos ganhar a competição. Há ambição, há confiança e, acima de tudo, muito foco no jogo de quinta-feira.

- Num dia de jogo europeu, numa eliminatória a duas mãos, como vive essas horas? Com emoção ou stress?
É um pouco dos dois. Há felicidade por estar neste contexto e também um foco total em ajudar a equipa técnica e preparar os jogadores da melhor forma, dando-lhes a informação necessária sem excessos. Nesta fase, a motivação já existe naturalmente. O importante é ajustar detalhes e preparar bem o adversário.
Acima de tudo, procuro equilíbrio: nem demasiado emocionado, nem demasiado stressado. Como costumo dizer, 'never too high, never too low'. O essencial é estar concentrado no trabalho, sem perder a emoção e a paixão pelo jogo.
