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Exclusivo com Tony da Silva: “Quero construir uma seleção que devolva esperança ao povo do Mali”

Tony da Silva assumiu as rédeas da seleção do Mali e traçou objetivos ambiciosos
Tony da Silva assumiu as rédeas da seleção do Mali e traçou objetivos ambiciososArquivo pessoal, Flashscore

Tony da Silva é o novo selecionador nacional do Mali. O treinador português explica as razões que o levaram a aceitar este desafio e o porquê de ter declinado a oferta que tinha do Gabão. A estreia oficial está marcada para 23 de setembro, altura em que os malianos vão defrontar Cabo Verde.

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Desde que pendurou as chuteiras em 2014/15, que Tony da Silva não tem parado. Foi treinador adjunto no Académico de Viseu, Freamunde, na seleção dos Camarões e no Paços de Ferreira, pelo meio, teve curtas passagens como treinador na AD Oliveirense, Bragança, Vilar de Perdizes, nos juniores do Desportivo de Chaves, Montalegre e nos romenos do Politehnica Iasi. Agora, segue-se o desafio de uma vida aos comandos do Mali. 

Nesta conversa com o Flashscore desde Bamako, o timoneiro de 45 anos detalhou todo o processo que fez com que a Federação Maliana de Futebol o contratasse, lamentou a queda vertiginosa do Paços de Ferreira à Liga 3 e elogiou Cristiano Ronaldo. 

Tony da Silva é o novo selecionador do Mali
Tony da Silva é o novo selecionador do MaliOpta by Stats Perform, arquivo pessoal Tony da Silva

"Antes de aceitar o Mali estive muito perto de assumir a seleção do Gabão"

- Como surgiu o convite para assumir a seleção do Mali e como têm sido estes primeiros tempos?

O convite surgiu com naturalidade, depois de vários anos em que procurei acumular experiência e competências para estar preparado quando surgisse uma oportunidade deste nível.

Antes de aceitar o Mali estive muito perto de assumir a seleção do Gabão. O processo estava bastante adiantado, mas, entretanto, o meu conselheiro apresentou o meu currículo ao Mali e realizou-se uma videoconferência com o presidente e o comité de seleção. O que estava previsto durar cerca de 45 minutos prolongou-se por duas horas, durante as quais falámos da minha visão para o futebol, da experiência que adquiri em África como treinador-adjunto dos Camarões e do trabalho que desenvolvi ao longo da carreira.

Tenho de agradecer ao António Conceição, porque foi ele quem me abriu as portas deste mundo. Foi quem me lançou na Liga enquanto jogador, no Estrela da Amadora, e quem me deu a oportunidade de integrar a equipa técnica dos Camarões. Nunca esquecerei isso.

Também ajudaram as recomendações que fui recolhendo ao longo dos anos e os estágios que realizei em clubes como Manchester United, Manchester City, PSG, FC Porto, Lille, Lyon, Marselha e Mónaco. Além disso, o facto de ter nascido em França e dominar o francês facilitou bastante a comunicação durante todo o processo.

- E o que o convenceu a aceitar esta proposta?

O presidente Mahazou Baba Cisset apresentou-me um projeto muito ambicioso. Encontrei uma administração com vontade de mudar mentalidades, de profissionalizar o futebol e de criar melhores condições para jogadores e treinadores. Foi isso que me convenceu a escolher o Mali.

Tony da Silva assinou contrato válido por três anos, com mais um de opção
Tony da Silva assinou contrato válido por três anos, com mais um de opçãoFacebook Federação Maliana de Futebol

Os resultados recentes do futebol africano mostram que esse caminho faz sentido. Basta olhar para o percurso de Marrocos ou para o crescimento consistente de Cabo Verde. No caso cabo-verdiano, não há surpresa nenhuma. É um trabalho pensado há vários anos, com estabilidade na equipa técnica e num núcleo de jogadores. É um excelente exemplo para muitas seleções africanas.

- Recentemente, o Mali falhou a qualificação para o Mundial, mas na última CAN chegou aos quartos de final, em que foi eliminado pelo Senegal. Que objetivos lhe foram traçados quando assinou contrato?

Sinto-me um privilegiado e tenho plena consciência da responsabilidade que assumi. O Mali ocupa o nono lugar do ranking africano da CAF e está na 52.ª posição do ranking mundial. Não estamos a falar de uma seleção qualquer. Temos jogadores de enorme qualidade, espalhados pelos principais campeonatos europeus, sobretudo em França, mas também na Turquia, nos Países Baixos, em Espanha e, até há pouco tempo, em Inglaterra.

O contrato é de três anos, com opção por mais um, e contempla a qualificação para o Mundial. Esse é um objetivo muito importante para a federação, mas temos de ir passo a passo. O primeiro desafio passa por garantir a presença na CAN de 2027 e fazer uma boa campanha nessa competição. O Mali tem chegado regularmente aos quartos de final e acredito que chegou o momento de sermos mais ambiciosos. Assumi internamente o objetivo de lutar por um lugar nas meias-finais. 

A longo prazo, naturalmente, queremos qualificar-nos para o Campeonato do Mundo.

- Já está instalado em Bamako. Que condições de trabalho encontrou?

Fiquei muito surpreendido pela positiva. O presidente passou muitos anos no Canadá e pretende trazer esse profissionalismo para o futebol maliano. Além disso, encontrei um governo que investe fortemente em infraestruturas para o desenvolvimento do futebol.

O centro de estágio de Kabala impressionou-me. Tirando Marrocos e, talvez, a África do Sul, poucos países africanos têm instalações desta qualidade. Cada seleção jovem dispõe do seu próprio espaço, com hotel e campos de treino, muito à semelhança da Cidade do Futebol em Portugal.

Em setembro será inaugurado um novo complexo destinado à seleção principal, com hotel próprio e três excelentes campos relvados. Tanto o governo como a federação estão a criar todas as condições para que a seleção possa atingir os seus objetivos.

Tony da Silva já começou a trabalhar em Bamako
Tony da Silva já começou a trabalhar em BamakoArquivo pessoal

É verdade que o Mali enfrenta uma situação geopolítica delicada no norte do país, mas aqui, em Bamako, não sentimos qualquer problema. Vivo com tranquilidade e segurança.

Aquilo que me foi pedido foi construir uma equipa com identidade, ofensiva e capaz de devolver esperança ao povo maliano. O futebol pode ser um motivo de alegria para um país que tem enfrentado muitas dificuldades, e essa responsabilidade motiva-nos diariamente.

"Cabo Verde realizou um Mundial extraordinário, mas não me surpreende"

- O Mali inicia a qualificação para a próxima edição do Campeonato Africano das Nações (CAN) frente a Cabo Verde, seguindo-se Libéria e Ruanda. Como olha para este grupo K? Assume o favoritismo?

O grupo é composto por quatro seleções: Mali, Cabo Verde, Libéria e Ruanda, sendo que duas garantem a qualificação para a CAN. Começamos logo com um jogo muito exigente diante de Cabo Verde, em casa. Apesar de ainda estarmos no início deste projeto, acredito que será uma excelente oportunidade para mostrarmos o nosso valor.

Cabo Verde realizou um Mundial extraordinário, mas não me surpreende. É uma equipa que trabalha junta há vários anos, com o mesmo treinador e uma estrutura estável. Essa continuidade dá-lhes alguma vantagem nesta fase. Ainda assim, também temos excelentes jogadores e atuamos perante os nossos adeptos. Espero um jogo muito equilibrado entre duas seleções de qualidade semelhante. Cabo Verde demonstrou toda a sua força ao empatar com Espanha e ao segurar a Argentina durante os 90 minutos no Mundial. Isso diz tudo sobre a qualidade desta equipa.

Respeitamo-los muito, mas não temos receio. Pelo contrário, encaramos este desafio como uma oportunidade para os nossos jogadores demonstrarem que também podem competir ao mais alto nível.

O Grupo K da qualificação para a CAN
O Grupo K da qualificação para a CANFlashscore

- O Mali conta com jogadores como Bissouma ou Haidara e tem uma geração muito interessante. Já tem uma ideia definida da convocatória?

Estamos a trabalhar há cerca de dois meses na preparação desta equipa e já elaborámos uma primeira lista, fruto de um trabalho muito profundo de observação e análise. Desde o primeiro dia transmiti ao presidente que existem três critérios dos quais não abdico na seleção do Mali: patriotismo, rendimento no clube e disciplina. Independentemente do nome do jogador, quem não cumprir estes requisitos não terá lugar na seleção.

Quero construir um grupo exigente, disciplinado, mas também feliz. Gosto de dar liberdade aos jogadores para se expressarem, desde que cumpram a organização coletiva. Quando um jogador se sente confortável e confiante, consegue mostrar o melhor do seu futebol.

- E já falou com alguns jogadores ou pensa recrutar outros para este novo ciclo?

Ao longo deste processo percebemos que o Mali possui enorme qualidade no corredor central. Temos entre 16 e 20 médios de grande nível, além de muitos centrais competitivos. É uma posição onde existe muita profundidade. Espero também recuperar Sikou Niakaté, do SC Braga, que já contactei e conheço bem, até porque vivo em Braga.

As maiores necessidades surgem nas alas, sobretudo nas posições laterais. Estamos a trabalhar para identificar jogadores com dupla nacionalidade, especialmente em França, onde existe uma enorme comunidade maliana. Como referiste, muitos clubes europeus recrutam talentos malianos muito cedo, ainda com 12 ou 13 anos. Isso explica porque o campeonato local perde rapidamente os seus melhores jogadores. Ainda recentemente, dois dos principais destaques da liga saíram para o Ruanda e para a Tanzânia, onde encontraram salários muito superiores.

Mesmo assim, o futebol maliano continua a produzir jogadores com características muito interessantes: fortes fisicamente, rápidos e tecnicamente muito evoluídos desde tenra idade.

"Ver o Paços de Ferreira assim magoa-me verdadeiramente"

- Como olha para a situação atual do Paços de Ferreira agora na Liga 3, um clube com o qual mantém uma ligação muito forte?

Muito forte. Nunca escondi isso. Apesar de ter nascido em França e de ter sido formado no Paris Saint-Germain, o meu clube do coração sempre foi o Desportivo de Chaves, mas o Paços de Ferreira ocupa um lugar muito especial na minha vida.

Foi o clube onde vivi os momentos mais marcantes da minha carreira. Com o Paulo Fonseca conseguimos uma época histórica, levando o Paços ao play-off da Liga dos Campeões, terminando à frente do Sporting e discutindo os primeiros lugares com FC Porto e Benfica. Foi a primeira vez que senti os grandes entrarem em campo com receio de defrontar uma equipa como a nossa.

Tony da Silva em entrevista ao Flashscore
Tony da Silva em entrevista ao FlashscoreOpta by Stats Perform, arquivo pessoal Tony da Silva

Criei uma ligação muito forte com o clube e com as pessoas, e sei que também deixei a minha marca no Paços. Sempre dei tudo em campo e fui muito feliz ali. Por isso, custa-me ver o clube na situação em que se encontra. Nunca imaginei que um emblema que cresceu de forma tão sustentada, tanto desportiva como estruturalmente, pudesse atravessar um momento destes.

- E o que ocorreu nas últimas épocas?

O Paços sempre teve uma identidade muito própria, era um clube familiar, unido, e isso fazia toda a diferença. Espero sinceramente que consiga regressar rapidamente ao lugar que merece, pela sua história, pelos adeptos e por todas as pessoas que lá trabalham. Tenho lá muitos amigos e guardo memórias extraordinárias. Ver o Paços assim magoa-me verdadeiramente.

Acredito que este é um momento em que a união é fundamental. Talvez tenha faltado essa união nos últimos anos e isso tenha contribuído para a situação atual. Espero que o Paços consiga recuperar e que não tenha um destino semelhante ao de outros históricos do futebol português, como é o caso do Boavista. Seria uma enorme perda.

- Depois de passar por vários clubes em Portugal, imagina um dia regressar para assumir um projeto no futebol português?

Portugal é o meu país e será sempre a minha casa. Neste momento estou exatamente onde queria estar, ao serviço de uma seleção com a dimensão do Mali, com um contrato de três anos, mais um de opção, e totalmente focado neste projeto. Ao longo da carreira fiz uma opção muito consciente: passar pelos mais diversos contextos para ganhar experiência. Fiz esse percurso porque queria estar preparado quando surgisse uma oportunidade deste nível. 

Na minha vida ninguém me ofereceu nada. Tudo o que consegui foi fruto de muito trabalho. Sempre procurei evoluir, realizar estágios com treinadores de topo, frequentar formações e aprender continuamente. Gosto de absorver conhecimento, selecionar aquilo em que acredito e construir a minha própria identidade como treinador.

A única pessoa a quem sinto que devo verdadeiramente uma oportunidade no futebol é ao António Conceição. De resto, tudo foi conquistado com trabalho, dedicação e vontade de evoluir diariamente.

- Nasceu em França e mantém uma forte ligação ao país. O que continua a uni-lo à realidade francesa?

A ligação continua a ser muito forte. Tenho muitos amigos em França e os meus pais vivem lá. Apesar de estar completamente estabilizado em Portugal, vivi em França até aos 18 anos e fiz toda a minha formação no Paris Saint-Germain, dos 12 aos 19 anos. Esse percurso marcou-me muito.

Ainda hoje mantenho contacto com muitas pessoas do futebol francês. Sou convidado regularmente para participar em programas de televisão, sobretudo para comentar jogos da Liga dos Campeões ou analisar temas relacionados com o futebol africano, português ou romeno. Durante vários anos fui comentador da RMC Sport.

França deu-me uma educação e uma formação muito importantes para a pessoa que sou hoje. Continuo a viajar frequentemente para lá, quer por motivos profissionais, quer para estar com a minha família. Mas a minha casa será sempre Portugal.

"Paulo Fonseca fez-me olhar para o futebol de uma forma completamente diferente"

- E a Roménia continua a ocupar um lugar especial?

Sem dúvida. Foi um país onde fui muito feliz, conquistei títulos, joguei a Liga dos Campeões e a Liga Europa e deixei uma excelente imagem. Mais tarde regressei como treinador, trabalhando na primeira e na segunda divisão.

Ainda hoje mantenho uma ligação muito forte à Roménia. Viajo regularmente para lá, tenho muitos amigos e continuo a ser muito respeitado. Com frequência sou convidado pela comunicação social ou por várias entidades para participar em eventos. É um país que faz parte da minha história e nunca esqueço os sítios onde fui feliz. Além disso, falo romeno com naturalidade. No total domino seis línguas: português, francês, inglês, espanhol, italiano e romeno. As viagens deram-me essa oportunidade e considero isso uma enorme riqueza.

- Quando percebeu que queria ser treinador? E quais foram as maiores referências nesse percurso?

Quando era jogador ainda não tinha essa ideia totalmente definida. Sempre quis continuar ligado ao futebol, mas não pensava necessariamente em ser treinador. Talvez essa paixão já estivesse dentro de mim, até porque o meu pai era treinador de uma equipa de lusodescendentes em França e acompanhei-o muitas vezes. Mas foi o Paulo Fonseca quem despertou verdadeiramente esse lado.

Fez-me olhar para o futebol de uma forma completamente diferente. Ainda hoje mantemos contacto e, há poucos dias, voltou a convidar-me para passar algum tempo com ele e trocar ideias. Sou muito grato por essa disponibilidade.

- E qual é a importância de António Conceição neste seu trajeto como treinador?

O António Conceição também é uma referência muito importante para mim. Ao longo dos anos tive ainda o privilégio de contactar com treinadores como Luis Enrique, Ruben Amorim, Roberto De Zerbi, Guardiola, Arteta e muitos outros, através de estágios e visitas de estudo. Procurei sempre aprender com todos e retirar aquilo que fazia sentido para construir a minha própria identidade.

Não posso esquecer o Ricardo Chéu, que foi a primeira pessoa a desafiar-me para integrar uma equipa técnica, no Académico de Viseu. Devo-lhe muito e, além disso, tornou-se um dos meus grandes amigos. Se tivesse de destacar três nomes que marcaram verdadeiramente o meu percurso seriam Paulo Fonseca, António Conceição e Ricardo Chéu.

Jorge Jesus? "Espero uma era de sucesso para Portugal"

- Portugal mudou de selecionador e Jorge Jesus assumiu a equipa nacional. O que espera desta nova era?

Espero uma era de sucesso para Portugal. Nunca trabalhei diretamente com o Jorge Jesus, mas defrontei as suas equipas várias vezes e acho que a carreira dele fala por si. Pela qualidade do trabalho que desenvolveu ao longo dos anos, merecia esta oportunidade.

Acredito que é o treinador com maior capacidade para potenciar esta geração e continuar a enriquecer o palmarés da seleção portuguesa. Os jogadores respeitam-no pela competência, pela paixão com que vive o futebol, pela personalidade e pelo enorme amor que sempre demonstrou por Portugal. Não tenho dúvidas de que conseguirá elevar novamente o nível competitivo da seleção.

-  Como se gere um jogador com o peso e a idade de Cristiano Ronaldo? 

Naturalmente, haverá também a questão da gestão de Cristiano Ronaldo. As pessoas, em Portugal, nem sempre têm verdadeira noção do impacto que Cristiano teve na Federação, não apenas dentro de campo, mas também ao nível da imagem e da dimensão económica que trouxe ao futebol português. Quando deixar a seleção, esse impacto será inevitavelmente sentido.

- Portugal nunca pareceu encontrar o equilíbrio em torno de CR7 nos últimos anos?

Também é importante termos memória. Com Cristiano Ronaldo conquistámos um Campeonato da Europa e uma Liga das Nações. Não podemos esquecer aquilo que ele deu à seleção. É evidente que a idade pesa e o próprio Cristiano tem consciência disso. Mais cedo ou mais tarde chegará o momento de terminar esse ciclo.

Mas acredito que Jorge Jesus é o treinador ideal para gerir essa situação. Trabalhou recentemente com Cristiano no Al Nassr, conhece-o bem e nunca teve problemas em utilizá-lo quando fazia sentido, substituí-lo ou deixá-lo no banco quando era necessário. Essa relação de confiança será muito importante. Ao mesmo tempo, tenho a certeza de que já está a preparar o futuro da seleção. Sabe que Cristiano está mais perto do fim da carreira do que do início e terá de construir uma equipa preparada para esse momento. Quando esse dia chegar, Portugal terá de agradecer tudo aquilo que Cristiano fez pelo país.

Espero também que consiga alcançar a marca dos mil golos. Seria um feito extraordinário para a história do futebol mundial e mais um motivo de orgulho para Portugal.

Tony da Silva estagiou no Manchester United de Bruno Fernandes
Tony da Silva estagiou no Manchester United de Bruno FernandesArquivo pessoal

- É conhecido por ser um excelente contador de histórias. Pode terminar com uma ou duas peripécias da carreira?

Sempre fui uma pessoa muito positiva dentro do balneário. Acredito que uma equipa forte começa por ter um excelente ambiente, com boa disposição, espírito de grupo e muitas gargalhadas. O melhor balneário que encontrei foi, sem dúvida, o do Paços de Ferreira. Todos os dias acontecia alguma coisa.

Tínhamos um grupo extraordinário e, mesmo passados 20 anos, continuamos a manter uma amizade muito forte: Filipe Anunciação, Ricardo, Manuel José, Caetano, Vítor Silva, Nuno Santos, Toninho, André Leão, Antunes... Vou certamente esquecer-me de alguém. Era, sem dúvida, um grupo muito unido.

Uma das histórias mais engraçadas envolveu o Filipe Anunciação, na despedida de solteiro. Fomos jogar à Madeira frente ao Marítimo e preparámos-lhe uma surpresa. Ele pensava que ia assistir a um striptease, mas quem acabou por fazer a atuação fui eu. Quem viveu aquele momento nunca mais o esqueceu. Foi uma risada enorme. Há muitas outras histórias, mas algumas têm mesmo de ficar dentro do balneário.

- Consegue contar outra?

Outra que posso contar aconteceu quando era treinador-adjunto no Académico de Viseu. Durante a pré-época decidimos comprar uma piscina insuflável para os jogadores fazerem crioterapia após os treinos.

Pedimos ao nosso roupeiro, o Marinho, para a preparar enquanto treinávamos. Quando regressámos, encontrámos os balneários completamente inundados. Em vez de encher primeiro a piscina com ar e depois colocar a água, tentou enchê-la diretamente com água. Ao fim de hora e meia, a piscina rebentou, a crioterapia acabou e ficámos apenas com uma enorme gargalhada.

Infelizmente, o Marinho já faleceu, mas guardo essa memória com muito carinho. Foi um daqueles momentos que mostram como o futebol também se faz destas pequenas histórias que ficam para sempre. Tenho muitas outras recordações, mas algumas continuarão reservadas ao balneário. São esses momentos que criam amizades para a vida e tornam o futebol tão especial.