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A mudança no formato das competições europeias tem promovido tantos estreantes que já nem há grande margem para menções nos sorteios da UEFA. Ainda assim, Giorgio Marchetti arranjou tempo para destacar a presença do Torreense na fase regular da Liga Europa.
O caso não é para menos. Desde 2011 que uma equipa do segundo escalão não participava na fase principal de uma prova europeia.
O Torreense sucede ao Zurique e apresenta-se à Europa do futebol como um autêntico underdog. A equipa de Luís Tralhão procura prolongar a aventura que começou na última temporada, agora num palco muito maior do que o português e numa altura em que tenta, também, reagir ao arranque menos conseguido na Liga 2.
Como é que o Torreense chegou à Liga Europa?
Fundado em 1917, o Torreense conta com seis participações no principal escalão do futebol português, a última das quais no cada vez mais longínquo ano de 1992.
34 anos depois, a formação de Torres Vedras esteve perto de regressar à Liga Portugal, mas a campanha histórica de 2025/26 acabou com um sabor agridoce para os comandados de Luís Tralhão.
Candidato à promoção, o Torreense passou apenas três jornadas em zona de subida direta e terminou o campeonato no 3.º lugar, posição que lhe valeu o acesso ao play-off.

No meio dessa luta, a campanha na Taça de Portugal foi sempre vista como um pano de fundo numa época que se esperava que acabasse em festa, mas não pelas razões que agora conhecemos.
Depois de quatro eliminatórias, incluindo um triunfo sobre o Casa Pia, da Liga Portugal, nos oitavos de final, o Torreense já era uma das principais surpresas da prova. A queda do SC Braga frente ao Fafe, porém, transformou a possibilidade de chegar ao Jamor numa séria ambição.
Enquanto lutava pela subida com Marítimo e Académico de Viseu, que viriam a garantir a promoção, a equipa de Torres Vedras venceu o Fafe, da Liga 3, por 2-0 nas meias-finais e chegou, pela segunda vez na história, à final da Taça de Portugal.

O natural seria aproveitar o dia de festa no Estádio Nacional e tentar evitar uma derrota pesada frente ao Sporting, que tinha deixado o FC Porto, eventual campeão nacional, pelo caminho nas meias-finais. Afinal, o calendário não favorecia a formação do segundo escalão.
Sem contar que uma equipa da Liga 2 atingisse a final da Taça de Portugal, a programação do play-off de subida à Liga Portugal colocou o Torreense perante um cenário de incerteza: entre os jogos com o Casa Pia, Luís Tralhão teria de decidir se apostava tudo na subida, objetivo definido no início da época, ou se poupava energias para tentar travar uma equipa claramente favorita e alcançar um feito histórico para o clube, vencendo a Taça de Portugal e conquistando o acesso à Liga Europa da temporada seguinte.
Depois de empatar (0-0) na primeira mão do play-off, a uma quarta-feira, a formação da Liga 2 disputou a final da Taça de Portugal no domingo sem grandes mudanças no onze. Seria natural que a diferença de argumentos perante um Sporting que tinha terminado o campeonato na 2.ª posição e garantido o apuramento para a Liga dos Campeões acabasse por pesar nas pernas do conjunto do Oeste, mas não foi isso que aconteceu.
Se é facto que a equipa leonina esteve longe do seu melhor no Jamor, também é certo que o Torreense teve enorme mérito na vitória por 1-2, colocando-se cedo em vantagem e garantindo o triunfo já no prolongamento, com um golo de penálti do capitão Stopira, aos 113 minutos. A lição foi bem estudada e o Carnaval, tão importante na cidade de Torres Vedras e adiado devido à tempestade que afetou a região no início de 2026, foi celebrado de uma forma inesquecível.
Pela primeira vez na história, o Torreense tinha vencido a Taça de Portugal. Mais do que isso, tinha também garantido a participação na Liga Europa 2026/27, escrevendo uma das mais belas páginas de sempre do futebol português.

Contudo, num plot twist digno de uma série com uma nova temporada já confirmada, quatro dias mais tarde a formação da Liga 2 foi derrotada (2-0) pelo Casa Pia e acabou mesmo por não conseguir a subida ao primeiro escalão.
Europa do futebol, eis o Torreense
Meses depois daquela tarde no Jamor, o Torreense prepara-se para trocar os relvados da Liga 2 pelos grandes palcos europeus. A equipa que causou dificuldades ao FC Porto na Supertaça (1-0), mas tem tido um arranque de temporada bem abaixo do esperado, vai agora defrontar alguns dos emblemas históricos do continente na Liga Europa.

Esta quinta-feira, o Torreense desloca-se à Noruega para defrontar o Lillestrøm na estreia na fase regular da Liga Europa. Depois, vai receber, em Leiria - casa emprestada para os jogos nesta competição -, o Sunderland, o Ararat, o Celtic e o Olympiacos. Pelo meio, terá deslocações ao Ferencváros (Hungria), à Real Sociedad (Espanha) e ao Lech Poznan (Polónia).
Mais do que pensar em pontuar ou chegar à próxima fase, a equipa de Luís Tralhão vai procurar desfrutar da experiência e aproveitar as atenções mediáticas para crescer de forma sustentada enquanto clube, valorizando também alguns ativos, como fez recentemente com a venda de Léo Azevedo por 3 milhões de euros para o Al Sharjah.

Ao participar na Liga Europa, o Torreense sabe que pode ver-se forçado a adiar o sonho da subida à Liga Portugal por mais uma temporada. No entanto, mais do que uma competição, a estreia nas provas europeias é uma oportunidade para começar a construir um futuro sustentável entre os grandes do futebol português e, quem sabe, um dia voltar à Europa com outros argumentos.

