"A palavra desistir não pode existir no nosso vocabulário"
Ricardo Varela é um apaixonado. Pelo desporto e pela vida. A sua condição física não lhe permite viver as atividades desportivas da mesma forma que a maioria, mas nunca foi refém do seu estado. Luta, persiste e insiste. E mostra que a sua personalidade vai muito além da "deficiência" (artrogripose múltipla) que o circunscrita a uma cadeira de rodas.
O Ricardo é um exemplo. Já esteve ligado ao basquetebol, ao futsal e encontrou no Boccia a oportunidade de praticar uma modalidade federada. "Foi a melhor opção", conta ao Flashscore.
Para os mais distantes desta realidade, o Boccia foi introduzido em Portugal em 1983, durante um curso organizado pela APPC (Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral), em estreita colaboração com a CP-ISRA (Associação Internacional de Desporto e Recreação para a Paralisia Cerebral), sendo considerada como modalidade Paralímpica.
Segundo descreve o site da Paralisia Cerebral - Associação Nacional de Desporto, o objetivo deste desporto é "colocar as bolas de cor (seis azuis contra seis vermelhas) o mais perto possível de uma bola alvo (bola branca), que é lançada estrategicamente por um primeiro jogador, para dentro do recinto de jogo (Campo de Boccia)".

"A habilidade, agilidade e inteligência tornam-se fundamentais no desenvolvimento das jogadas, assistindo-se muitas vezes a um verdadeiro espectáculo de alternância da vantagem, através da aplicação de técnicas e tácticas adequadas a cada circunstância", acrescenta a entidade.
O início do percurso no Boccia
Movido por toda essa paixão que o caracteriza, o Ricardo teve o primeiro contacto com o Boccia ainda no desporto escolar, em Santa Comba Dão, e ingressou no seu primeiro projeto desportivo através da Associação de Paralisia Cerebral de Viseu (APCV), em 2013.
Esteve parado um ano, entre 2016 e 2017, antes de regressar com as cores da Associação Mover Viseu, onde teve a oportunidade de sagrar-se Campeão Regional das zonas Centro, Sul e Ilhas. Os últimos anos ficam marcados pela conquista de algumas medalhas e é, atualmente, vice-campeão regional individual e de pares, pela Cooperativa Vários, de Tondela.
"Sinto-me muito feliz e realizado no meu novo clube, pois, apesar das dificuldades, temos conseguido juntos alcançar várias e novas conquistas", descreve Ricardo Varela ao Flashscore.
A Vários é uma organização de Solidariedade Social, na área da Ação Social, equiparada a IPSS, com sede na cidade de Tondela, e estende a sua área de ação pelos concelhos limítrofes, que tem como "missão prestar um serviço de qualidade a jovens e adultos com deficiência e/ou incapacidade e desfavorecidos em geral, promovendo a sua inserção social e laboral, contribuindo para um sustentado projeto de vida".

As palavras de apresentação da instituição tondelense pertencem a Eduardo Martins, atual teinador de Ricardo, que acrescenta que através do Boccia acabam por "potenciar muitas áreas da vida dos atletas, não apenas a parte desportiva".
O casamento entre o Ricardo e a Vários é recente, mas o orgulho que existe na relação, de parte a parte, é visível ao longe. A forma como comunicam e se respeitam é enorme. Sente-se.
"O Ricardo é um jovem como tantos outros, mas com características motoras diferentes, limitando-o apenas em algumas circunstâncias naturais da vida e no dia-a-dia. É um jovem educado e capaz de adaptar-se às circunstâncias. Enquanto atleta, é minucioso, gosta de aprender e aposta muito na rotina de treino, investindo muito numa leitura tática da modalidade, pois, ao contrário do que muita gente pensa, não basta colocar as bolas de cor junto da branca. Existe muita tática no Boccia", descreve Eduardo.
"É compreensivo e um jovem de bom trato. Percebe e entende muitas vezes as limitações existentes, mas encara tudo sempre com muita resiliência. Acredito que tem um futuro muito promissor pela frente", acrescenta o treinador.

"É um desporto muito caro e não é fácil arranjar apoios"
A dedicação e o esforço diários são ingredientes necessários para que os objetivos fiquem mais próximos. No entanto, não há como fugir às dificuldades mais prementes, nomeadamente o custo do material, até porque acabam por tornar a competição muitas vezes desleal entre os participantes.
Para que se tenha uma ideia aproximada, um kit completo de bolas tem um custo a rondar os 1000 euros e uma calha pode atingir os 4.000 ou 5.000 euros. "É um desporto muito caro", explica Ricardo Varela. A somar a isso ainda há as despesas com o transporte e alojamento para a presença e participação nas competições.
Sendo natural de um meio pequeno, uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, num interior tantas vezes ostracizado em contraposição com os grandes centros urbanos, a luta é "difícil", mas não é mais forte do que este verdadeiro exemplo.

"Não vou negar... Já pensei em desistir, claro que sim, mas já não penso tanto desde que vim para este novo clube. Conto com a ajuda dos meus treinadores e ando sempre à procura de possíveis patrocinadores. É preciso fazer uma ginástica muito grande, não é fácil", descreve Ricardo.
"As calhas de topo rondam os 4.000 euros, a minha teve um custo de 1.000 e já anda toda amolgada. Não é fácil fazer frente aos chamados grandes", acrescenta.
Eduardo Martins sublinha que o "treino" é fundamental para atingir outros patamares, mas também não esconde que as questões financeiras condicionam bastante: "Essa é sempre uma dificuldade. Por vezes temos de ficar (alojados) dois ou três dias, dependendo da distância, e é difícil dar uma resposta logística ao atleta e à sua equipa técnica".
Oito quilómetros para ajudar o Ricardo
Dificuldades, dificuldades e mais dificuldades. O discurso podia ficar por aqui, mas não fica. Ricardo não quer que a sua história se limite às inúmeras dificuldades que lhe vão aparecendo no caminho.
A história de "ser um exemplo" não é um cliché. A forma como encara a vida contagia e são várias as pessoas que se têm juntado ao longo dos anos e que o ajudam a tornar o seu trajeto muito menos sinuoso.
António Pereira (Tomané) e Joaquim Santos são dois belos exemplos. Os dois amigos pertencem ao "Cicloclube Pedais do Dão", conhecem o Ricardo "há muitos anos" e perceberam que estava na altura de reunir a comunidade para um bem maior.

"A minha empresa é patrocinadora habitual do Ricardo, mas este ano o clube precisou de equipamentos e tive de direcionar essa verba para essa questão. Expliquei a situação ao Eduardo e mesmo assim eles disseram que não iriam retirar o nosso nome da lista dos patrocinadores", introduz Tomané. Uma prova de gratidão.
"Entretanto, pensei que podíamos fazer algo enquanto associação. Falei com o presidente do Cicloclube (Joaquim) e a ideia foi muito bem acolhida. Então, decidimos fazer uma atividade que concentrasse o maior número de gente possível e fosse acessível a todos. A nossa matriz é a bicicleta, mas era limitativa e optámos pela caminhada", acrescenta.
Em estreita colaboração com o Centro Cultural Recreativo e Social da Gestosa, a caminhada organizada pelo Cicloclube juntou cerca de uma centena e meia de pessoas no passado dia 19 de maio para que fossem cumpridos oito quilómetros e todos dessem o seu contributo - a inscrição tinha um custo de 10 euros (incluía almoço) e o valor revertia na totalidade para o Ricardo.
"Acredito que vamos conseguir suprir algumas necessidades com as quais o nosso amigo Ricardo se depara no dia-a-dia. Ele está muito animado e isto não faz bem só a ele. Faz-nos bem a nós cidadãos, que vivemos em comunidade, e achamos que toda a gente deve ter as mesmas condições", anuncia Tomané.
"Espero que possamos ajudar outras pessoas no próximo ano. Queremos ser parte ativa na comunidade", acrescenta Joaquim.

"Não tenho palavras para tanta generosidade"
Rodrigo Ferreira, estudante, de 20 anos, decidiu participar na caminhada, não só pelo "bem-estar" que é possível encontrar através da prática de desporto, mas, acima de tudo, pela noção da importância de olhar para o próximo.
"Este tipo de iniciativas são muito importantes. Sou da opinião que é nosso dever estarmos atentos e zelar por quem nos rodeia. Hoje é pelo Ricardo, amanhã por outra pessoa que também passe por algumas dificuldades. Por mais momentos como este", defende.
Entre muitos conhecidos e muitas outras caras desconhecidas, encontramos Liliana Varela. A Liliana é tão só a irmã do Ricardo, uma conhecedora profunda de toda a história, e ficou naturalmente muito grata pela iniciativa.
"Eu acho que deviam existir mais iniciativas como esta, não só para o meu irmão, mas para todos aqueles que praticam desportos em que é necessário ter algum poder económico para adquirir este tipo de equipamento", introduz.

"No caso do meu irmão, esta iniciativa foi fundamental porque, apesar de todos os patrocínios, nem sempre dá para tudo. Agradeço a todos aqueles que participaram! Graças à generosidade e boa vontade de todos, conseguimos ajudar o meu irmão a adquirir uma calha", remata.
Depois de um dia de partilha, convivívio, amizade e muita generosidade, Ricardo ainda está a absorver todas as emoções. As palavras são poucas, mas a gratidão é gigante. O olhar não mente.
"Não tenho palavras. Não estava à espera de ver aqui tanta gente e só me resta agradecer tanta generosidade. Obrigado!", atira.
"A palavra desistir não pode estar no nosso vocabulário ou pensamento. Temos sempre de ir à luta, nunca baixar os braços e lutar sempre pelo nosso sonho, seja ele qual for! O meu sonho é chegar à Seleção Nacional".

