Exclusivo com Tiago Dantas: "Croácia está a potenciar as minhas melhores qualidades"

Tiago Dantas em destaque no Rijeka
Tiago Dantas em destaque no RijekaArquivo Pessoal, Flashscore

A viver a melhor fase da carreira, Tiago Dantas soma já 10 golos e 10 assistências ao serviço do HNK Rijeka, números que refletem uma evolução clara no seu jogo e uma influência cada vez maior na equipa. Longe de Portugal, o médio encontrou na Croácia o contexto ideal para crescer, assumir protagonismo e acrescentar uma dimensão mais decisiva ao seu futebol.

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Nesta entrevista ao Flashscore, o internacional jovem português fala sobre o amadurecimento dentro e fora de campo, a importância da paternidade numa fase determinante da carreira e o impacto que a mudança para o Rijeka teve no seu rendimento. Pelo meio, revisita ainda o percurso na formação do Benfica e a exigência vivida no Bayern Munique.

Entre números, escolhas e ambições, Tiago Dantas mostra-se hoje um jogador mais completo, consciente do caminho feito e focado no presente, sem esconder que continua a querer mais para o futuro.

Tiago Dantas analisa época na Croácia
Tiago Dantas analisa época na CroáciaOpta by Stats Perform, HNK Rijeka

"Sinto-me um jogador mais completo"

- Sente que estes números começam finalmente a mostrar o jogador que imaginava ser no início da carreira? Ou seja, tinha essa perspetiva de futuro: ter estes números e esta preponderância numa equipa?

Sim, tens toda a razão. Sempre imaginei conseguir acrescentar números ao meu jogo, algo que vinha a ser difícil. Neste último ano e meio percebi que isso é muito importante no futebol de hoje e, felizmente, esta época está tudo a correr muito bem.

- É verdade que os números, no futebol moderno, acabam por ter uma importância às vezes demasiado grande, porque não espelham tudo aquilo que é um jogador. Mas o que mudou mais para termos agora um Tiago mais goleador e com mais assistências? Mudou mais o jogador, o homem, ou os dois?

Acho que mudou sobretudo a predisposição para não estar sempre tão recuado no terreno e conseguir chegar mais à frente. Se eu estiver mais vezes dentro da área adversária, mesmo que os cruzamentos ou os remates saiam mal, há mais hipóteses de a bola sobrar e eu estar perto de marcar. A bola parada também ajuda nos números, porque aqui sou um dos principais batedores de livres, cantos e penáltis.

- E sente que a mudança para o Rijeka também valorizou ainda mais o seu jogo?

Saí do Osijek para o Rijeka e, desde cedo, senti-me muito à vontade. Colocaram-me logo a jogar. Não houve aquele período de adaptação que muitos jogadores têm, o que é normal. Cheguei a uma equipa nova, que tinha sido campeã do campeonato e da Taça, e meteram-me logo a jogar. Isso foi importante para sentir que era realmente importante aqui e que valorizavam muito o meu futebol. Depois foi dar continuidade, melhorar algumas coisas e as coisas estão a correr muito bem. Espero que continue assim, porque ainda temos coisas para fazer esta época.

Os números de Tiago Dantas
Os números de Tiago DantasFlashscore

- Em Portugal olha-se pouco para certos campeonatos. Para quem não conhece tão bem a liga croata, que valências tem e o que mais o surpreendeu?

Acho normal que as pessoas em Portugal não olhem tanto para aqui, porque a liga portuguesa e as principais ligas do mundo são mais apetecíveis de ver. Não há como esconder isso. Quando cheguei, o que mais me surpreendeu foi a capacidade física de todas as equipas. É um campeonato muito físico. E a maior parte das equipas tem dois, três ou quatro jogadores tecnicamente muito fortes. Mas, se tivesse de destacar uma característica, diria a capacidade física de todas as equipas.

- Durante muitos anos falou-se muito do talento que era o Tiago Dantas. Hoje sente-se um jogador muito mais completo do que propriamente aquela ideia de talento que existia sobre si?

Sim, acho que os números também demonstram essa evolução. Cada jogador tem o seu processo de amadurecimento, seja futebolístico ou pessoal. O meu chegou mais tarde do que eu queria, é verdade, mas chegou e espero que tenha vindo para durar. Estou a trabalhar para isso.

Sinto-me um jogador mais completo. Não quero apenas contribuir para o jogo posicional da equipa ou para criar jogadas, quero também finalizá-las. No processo defensivo também estou bastante melhor e sinto-me muito mais à vontade nesse aspeto.

- Leitura de jogo, pensamento e qualidade de passe são algumas das características que lhe são apontadas. Sentes que encontrou na Croácia o contexto ideal para potenciar essas qualidades? Estar mais longe dos olhares de Portugal também o libertou de alguma pressão?

Quando estava em Portugal, sabia que as pessoas falavam, mas não acho que fosse pressão. Elas sabiam quem eu era e queriam que as coisas acontecessem, tal como eu também queria. As coisas não aconteceram e está tudo bem.

Aqui na Croácia, acho que teve muito a ver com o meu amadurecimento enquanto pessoa, sobretudo esta época. O campeonato está a trazer ao de cima as minhas melhores qualidades e estou a trabalhar para isso. O treinador que me trouxe deu-me um papel muito importante desde o primeiro dia. Depois mudámos de treinador, cerca de dois meses depois, e o treinador que chegou também me deu toda a liberdade e confiança para continuar a jogar o meu futebol. Sinto-me uma peça muito importante no clube e estou a gostar muito de estar aqui.

Tiago Dantas vive fase feliz na Croácia
Tiago Dantas vive fase feliz na CroáciaHNK Rijeka

O lado da paternidade: "Quero que o meu filho tenha orgulho no pai"

- Coincidência ou não, esta melhor fase da sua carreira coincide também com um período muito bonito da sua vida pessoal. Foi pai há cerca de cinco meses. O nascimento de um filho muda a forma como um jogador olha para a profissão?

No meu caso, sem dúvida. O futebol deixou de ser a coisa mais importante da face da Terra. E isso traz muitas coisas boas. Quando há um jogo que corre menos bem, chego a casa e já não penso só em futebol. Antes era apenas isso. Agora chego a casa e tenho algo, e alguém, mais importante do que o jogo.

É uma fase muito bonita. Tem coisas boas e coisas menos boas, como tudo, mas são muito mais as coisas boas. Estou muito feliz, a minha família está muito feliz aqui, gostamos muito de viver cá. As pessoas são incríveis connosco, conhecemos pessoas fantásticas que nos ajudaram muito na adaptação à cidade. 

- E como é a vida fora do futebol na Croácia? Já é o seu segundo ano aí, embora em clubes diferentes. É um bom contexto para a família?

Gosto muito. A cidade onde estava no ano passado tinha muito menos coisas para fazer. Este ano estou numa cidade fantástica, temos o mar aqui perto de casa, é muito bom. Há muitas coisas para fazer, dá para passear bastante, faz sol durante grande parte do ano e o centro fica perto de casa.

As pessoas não incomodam. Dá para estar na rua completamente à vontade. Claro que às vezes reconhecem, mas isso também é bonito e faz parte de sermos jogadores. A minha namorada e o meu filho estão felizes. Ele ainda não diz, mas parece-me que gosta, e ela tenho a certeza de que gosta. Para mim, o mais importante é eles estarem bem e felizes. Se eles estiverem bem, eu também estou bem.

- Desde que foi pai, sente-se mais tranquilo em campo ou ainda mais motivado? Já teve também a oportunidade de entrar em campo com ele.

Sim, foi uma grande sensação. Foi muito especial. Mas quando entro em campo não sinto nada extra. É exatamente a mesma coisa. Não penso nisso.

- Uma pergunta mais emocional: que homem quer que o seu filho veja quando olhar para a sua carreira? Daqui a uns anos, quando tiver outra perceção, o que gostarias que ele visse no pai?

Gostava que tivesse orgulho naquilo que eu fiz. Acho que vai ter, porque tento fazer sempre o melhor que sei. Se não faço mais, é porque não consigo ou porque não sei mais. É só isso. Quero que ele tenha orgulho no pai. O resto logo se vê.

Tiago Dantas falou sobre a gestão de expectativas
Tiago Dantas falou sobre a gestão de expectativasHNK Rijeka

"As pessoas dizem o que querem, quando querem, e está tudo bem"

- A idade traz amadurecimento, dentro e fora de campo. A forma como vê hoje o futebol é muito diferente daquela que tinha há cinco ou dez anos?

Não. É verdade que o futebol evoluiu e o jogo é cada vez mais difícil, porque as equipas estão cada vez mais bem preparadas, os treinadores estão cada vez melhores e há muito mais informação hoje do que antigamente. Mas, no fim do dia, são 11 contra 11 e o futebol será sempre o mesmo.

- Sentiu, em algum momento, que receber demasiado cedo o rótulo de promessa trouxe consequências? Essa pressão nos jovens da formação de grandes clubes cria mais problemas do que benefícios?

Acho que isso é bom. É sinal de que somos bons naquilo que fazemos. As pessoas só falam desses miúdos porque eles são bons. Se não fossem, ninguém saberia quem eram. Depois cabe ao miúdo, ao jogador, fazer o seu papel, evoluir e tentar tornar-se no melhor jogador possível, seja no clube onde está ou noutro clube no futuro. Eu não sentia essa pressão. Gostava que as pessoas reconhecessem a minha capacidade e o meu talento.

- Sente que, em algumas fases, o seu percurso era mais analisado do que compreendido? E que as pessoas não percebiam o porquê de certos passos na carreira?

Acho que isso faz parte do quotidiano, sobretudo hoje em dia, com as redes sociais. Toda a gente tem uma opinião sobre tudo e muitas vezes as pessoas não guardam essa opinião para si. Dizem o que querem, quando querem, e está tudo bem. Cada um tem liberdade de expressão.

Nós estamos neste mundo e não podemos querer só as coisas boas. Temos de lidar também com as coisas más, sejam comentários ou outra coisa qualquer. Quando as coisas boas acontecem, queremos que venham ter connosco, mas quando as coisas não correm tão bem também temos de saber lidar com isso. Eu faço a minha vida como sempre fiz. Sou eu que tomo as decisões sobre a minha vida e a opinião das pessoas não influencia isso.

Tiago Dantas jogou no Estádio da Luz
Tiago Dantas jogou no Estádio da LuzPEDRO FIUZA / NURPHOTO / NURPHOTO VIA AFP

Passagem pelo Benfica: "É um clube que fará sempre parte de mim"

- O Benfica faz parte da sua história e já disse várias vezes que tem orgulho nesse capítulo da sua vida. O que é que ainda reside em ti desse ADN formado no Benfica?

Tudo. Foi o sítio onde fui formado enquanto jogador e enquanto pessoa. Foram muitos anos. O jogador que sou hoje deve-se muito ao que me ensinaram ali, pois foi o único sítio onde aprendi a jogar futebol. Também há valores humanos que nos passam desde miúdos e que são muito importantes. A pessoa que sou hoje deve-se muito ao Benfica e a toda a gente do clube que me ajudou, em coisas grandes e pequenas.

- Cresce no Benfica desde muito cedo. Como foi crescer num clube dessa dimensão, com tanta exigência, e abdicar de algumas coisas que outros jovens da sua idade faziam?

Entrei muito cedo no Benfica, com quatro anos. Na altura era apenas uma brincadeira, obviamente. Mas acho que é bom termos exigência sobre nós. Isso faz-nos melhores pessoas e, consequentemente, melhores jogadores. A exigência de jogar sempre para ganhar e não pensar noutra coisa é ótima. Torna-nos pessoas mais resilientes quando as coisas não acontecem. Ficamos frustrados, mas isso traz mais treino, mais motivação, e os resultados acabam por aparecer.

- Durante a formação, viu muitos colegas entrar e sair. Como era para si, ainda jovem, perceber que o funil ia apertando e que nem todos iam chegar ao topo?

Não é fácil, porque criamos relações. De um ano para o outro saíam 10 ou 15 jogadores, às vezes mais. Quando éramos mais novos, os grupos eram maiores, depois iam ficando mais pequenos e o funil apertava. Saíam jogadores, entravam outros e tínhamos de criar novas relações. Todos tínhamos o sonho de ser jogadores profissionais. Alguns conseguiram, muitos não. É a vida que escolhemos. Podia ter acontecido comigo, felizmente não aconteceu, e hoje sou jogador profissional de futebol.

Tiago Dantas passou muitos anos no Benfica
Tiago Dantas passou muitos anos no BenficaOpta by Stats Perform, SL Benfica

Estou muito feliz com o meu trajeto, mas é difícil. Há muitos miúdos que abdicam de muita coisa e não chegam. Talvez, em retrospetiva, pensem que não valeu a pena. Mas é um sonho e, quando temos um sonho, temos de lutar por ele. É fácil falar agora, porque eu consegui fazer disto profissão, mas acho que há que tentar. Quando somos miúdos e temos esse sonho, temos de ir com tudo e não pensar duas vezes.

- É difícil falar sobre nós próprios, mas o que acha que fez a diferença no seu caso para chegar a profissional?

Primeiro, tem de haver talento. Se não houver um mínimo de talento, por mais que um miúdo queira ser jogador, acho que não consegue. Depois é abdicar de algumas coisas, querer treinar todos os dias, faça chuva ou faça sol, fazer jogos a centenas de quilómetros de casa e estar disposto a esses sacrifícios. É isso que faz a diferença. Depois as coisas vão apertando e vão ficando os melhores. Mesmo entre os melhores, poucos chegam às equipas seniores. O futebol é assim e é preciso saber viver com isso.

- O Tiago é jogador profissional, mas nunca escondeu que a relação com o Benfica é mais do que profissional. É também emocional. Para onde quer que vá, essa ligação acompanha-o?

Claro. É um clube que fará sempre parte de mim, não só do jogador, mas da pessoa que sou. Toda a gente sabe a ligação que tenho ao Benfica, sobretudo as pessoas mais próximas. Para onde quer que vá, vou sempre acompanhar o Benfica e querer que tenha os melhores resultados possíveis.

Tiago Dantas conquistou Bundesliga no Bayern Munique
Tiago Dantas conquistou Bundesliga no Bayern MuniqueALEXANDER HASSENSTEIN / GETTY IMAGES EUROPE / GETTY IMAGES VIA AFP

A exigência no Bayern Munique

- Outro capítulo marcante foi a saída do Benfica para o Bayern Munique. O que aprendeu lá e trouxe para a vida? A qualidade, a disciplina, a mentalidade vencedora?

A exigência. O que mais retirei de lá foi a exigência que os jogadores têm consigo próprios. Basta ver o que aconteceu esta semana (n.d.r. PSG contra o Bayern Munique, 5-4). Eles são dos melhores do mundo, mas têm de o provar todos os dias. E provam-no diariamente, semana após semana, seja contra o Dortmund ou contra o Hoffenheim, com todo o respeito. Eles querem ser ainda melhores. 

- Depois de Benfica e Bayern, foi preciso perceber que o caminho tinha de continuar noutro lado: Tondela, Grécia, Países Baixos, Croácia. Como foi lidar com essas mudanças?

Acho que o mais importante é seguir em frente. A vida continua. Se não estamos realizados num sítio, ou se as pessoas não nos valorizam tanto, temos de procurar um lugar onde isso aconteça e onde nos sintamos importantes. No fim do dia, todos queremos sentir-nos valorizados na nossa profissão. Foi isso que procurei. Tive épocas melhores, épocas piores, e a vida segue. Agora estou aqui, as coisas estão a correr bem e vou continuar a trabalhar para isso.

Tiago Dantas num jogo da Liga Conferência
Tiago Dantas num jogo da Liga ConferênciaHNK Rijeka

"Futuro? Estou muito feliz aqui, mas um jogador quer sempre mais"

- Voltamos então ao ponto inicial: 10 golos e 10 assistências. O que espera que esta época lhe dê? Tem contrato com o Rijeka, está feliz, mas qualquer jogador quer sempre mais.

A época está a correr muito bem. Tenho muitos jogos, muitos minutos, e os números estão aí. O que é que a época me vai trazer? Não sei. Pode não trazer nada e as coisas continuarem como estão, e está tudo bem, porque estou muito feliz aqui. Mas é normal que, com uma época assim, haja pessoas atentas ao que estou a fazer. Ainda assim, não penso muito nisso. Antigamente pensava muito no futuro. Agora vivo mais o presente, porque as coisas não dependem só de mim. O que depende de mim é aquilo que faço no dia a dia, nos treinos e nos jogos.

Estou muito feliz aqui e as pessoas do clube sabem isso. Mas também não sou inocente: percebo a pergunta. Um jogador de futebol quer sempre mais, melhores condições para si e para os seus. Acho que toda a gente tem noção disso.

A forma recente do HNK Rijeka
A forma recente do HNK RijekaFlashscore

- Aos 25 anos, o que é que o Tiago ainda ambiciona?

Um jogador de 25 anos não está a caminhar para o fim, muito pelo contrário. O amadurecimento que tive no último ano e meio ou nos últimos dois anos trouxe-me até este momento. Estou, provavelmente, no melhor momento da minha carreira. Há que aproveitar isso, continuar a melhorar e fazer coisas muito boas.

- Está há praticamente quatro anos fora de Portugal. Sente que ainda tem algo a provar em Portugal? Ou necessidade de um dia voltar para as pessoas conhecerem uma versão diferente de si?

Não. Não me importa muito se as pessoas vão conhecer ou não. O que me importa são as pessoas de quem gosto, e essas estão sempre presentes, quer eu esteja em Portugal, quer esteja na Croácia. Não tenho essa necessidade. Se um dia acontecer, claro que terei de olhar para as coisas e perceber se faz sentido. Mas não sinto essa necessidade.

Adeptos do Rijeka no apoio à equipa
Adeptos do Rijeka no apoio à equipaHNK Rijeka

Bandeiras portuguesas em Rijeka: "É das coisas mais bonitas do futebol"

- Voltando ao Rijeka, que realidade encontra em termos de clube, relações humanas e estrutura?

É um clube muito familiar. Não são muitas as pessoas que trabalham no clube. É um núcleo pequeno, mas com relações fenomenais. Desde o cozinheiro ao senhor dos equipamentos, tenho excelentes relações com toda a gente.

Há um sentido muito humano de proteger o clube e de manter essas relações. Acho que o presidente e a direção têm feito um excelente trabalho nesse aspeto. Também temos um grupo muito bom, com uma relação excelente entre todos. O treinador que chegou ajudou ainda mais nesse processo, dando oportunidades a mais jogadores e fazendo com que todos se sentissem integrados, sobretudo quem veio de fora. É um clube muito familiar e gosto muito disso.

- E a relação com os adeptos? A Croácia é conhecida por ter adeptos fervorosos.

Sim, faz-me lembrar um pouco o que vivi na Grécia. No último fim de semana jogámos com o Hajduk e, na minha opinião, foi a melhor atmosfera que tivemos em casa esta época. Foi fenomenal. O estádio estava completamente cheio. O Dinamo é o maior clube da Croácia, mas o maior rival é o Hajduk. Foi um ambiente fantástico. Já tínhamos tido noites europeias muito boas, mas diria que esse jogo foi o melhor até agora. 

Na rua há pessoas que abordam, outras ficam mais no seu canto, mas percebemos que reconhecem. São muito simpáticas e não são mal-intencionadas.

- Já se veem camisolas com o seu número ou bandeiras portuguesas?

Sim, já se vê. Nos dias de jogo já aparecem algumas bandeiras e alguns miúdos com camisolas. Acho que também estou a fazer por isso, as coisas estão a correr bem e as pessoas reconhecem qualidade.

- E esse lado de ver uma bandeira portuguesa ou uma camisola com o seu número ajuda também a matar um pouco as saudades de Portugal?

Sim, é giro. É sempre bom. Mas acho que as pessoas já me conheciam do campeonato. Eu já estava no Osijek, não era um jogador vindo de um campeonato que os croatas não conhecessem.

A minha época passada não foi a melhor. Joguei bastante, mas em termos de números não foi a melhor. Acho que as pessoas não tinham grande expectativa. Quando comecei a jogar, foram falando comigo e dizendo que gostavam do meu jogo. À medida que os meses foram passando e a época foi correndo bem, reconheceram cada vez mais as minhas capacidades. Isso é das coisas mais bonitas do futebol: jogarmos para os nossos adeptos e eles reconhecerem qualidade.

Tiago Dantas vive fase muito positiva ao serviço do Rijeka
Tiago Dantas vive fase muito positiva ao serviço do RijekaHNK Rijeka

"Sempre gostei muito do futebol associativo, mas hoje isso não chega"

- Hoje, qual é o futebol que mais gosta de praticar? No cenário ideal, se pudesses escolher a forma de jogar, como seria?

Sempre gostei muito de futebol associativo, posicional e bom jogo de posse. Mas também percebi que, hoje em dia, isso não chega. É preciso pressionar muito forte o adversário, muitas vezes homem a homem. Vê-se isso cada vez mais. Mas, claro, o jogo associativo é aquele que me dá mais prazer.

- Quando esta época terminar, o que gostaria que dissessem sobre o Tiago Dantas para lá dos números?

Que, também pela minha influência, o Rijeka joga um futebol muito positivo e que eu contribuo muito para esse futebol.

- Se o futebol fosse uma pessoa e tivesse oportunidade de o encontrar na rua, o que lhe diria por tudo aquilo que já lhe deu a viver?

Diria que não o deixassem mudar muito mais. O futebol tem vindo a mudar, sobretudo com estas questões do VAR, e eu, pessoalmente, não gosto nada. Nós erramos em campo, os treinadores erram e a equipa de arbitragem também pode errar. Não gosto de hoje em dia não se poder festejar um golo da mesma forma. Acho que isso tira emoção ao jogo e aos adeptos. Se pudesse dizer alguma coisa, seria isso: que não deixassem o futebol mudar muito mais do que já mudou.

Os próximos jogos do HNK Rijeka
Os próximos jogos do HNK RijekaFlashscore

- Ainda tem 25 anos, uma longa carreira pela frente. Mas, no dia em que decidir que está na altura de parar, que resposta gostaria que dessem à pergunta: 'Quem foi o Tiago Dantas?'

As únicas pessoas que quero que respondam a isso são a minha família e os meus amigos mais próximos. E acho que essas pessoas não vão falar melhor ou pior de mim por causa daquilo que eu fizer dentro de campo. Vão estar sempre lá. Vão dizer coisas boas quando tiverem de dizer e coisas menos boas quando for preciso.

Não tenho grande preocupação com aquilo que as outras pessoas vão dizer. Se a maior parte das pessoas nem me reconhecer, se calhar até é melhor, porque terei uma vida mais tranquila.